A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal

ANTHONY BURGESS

O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h12

Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpinteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismo com palavras, como se essas fossem bolas coloridas.

O uso que ele faz das palavras não deve ser levado excessivamente a sério. O presidente dos Estados Unidos usa palavras; o médico, o mecânico, o general do Exército ou o filósofo usam palavras; e essas palavras parecem estar relacionadas ao mundo real, um mundo em que impostos precisam ser arrecadados e depois evitados; carros precisam ser dirigidos; doenças, curadas; grandes pensamentos, pensados; batalhas decisivas, travadas. Nenhum criador de enredos ou personagens, por maior que seja, deve ser considerado um pensador sério, nem mesmo Shakespeare. Na realidade, é difícil saber o que o escritor criativo realmente pensa, pois ele se esconde atrás de suas cenas e de seus personagens. E quando os personagens começam a pensar e a expressar seus pensamentos, não se trata, necessariamente, dos pensamentos do escritor. Macbeth pensa uma coisa e Macduff, algo diametralmente oposto; as ponderações do Rei não são as mesmas de Hamlet. Até mesmo o dramaturgo trágico é um palhaço, soprando uma melodia triste em um trombone velho. E então seu ânimo trágico se esgota e ele se torna um bufão, cambaleando por aí e plantando bananeiras. Nada que deva ser levado a sério.

Por vezes, entretanto, um mero recreador como eu pode ser tragado a contragosto para a esfera do pensamento "sério". Ele se vê forçado a dar sua opinião sobre questões profundas. A causa dessa obrigação pode ser um repentino interesse público por um de seus romances - um livro que ele tenha escrito sem considerar profundamente o significado, cujo objetivo era render algum dinheiro para pagar o aluguel, mas que acabou adquirindo uma importância não prevista pelo autor. Ou pode ser um romance em que, graças a uma preocupação ou a um rancor irredutível em relação a algo que acontece no mundo real, o romancista - para seu próprio arrependimento - cria algo menos recreativo do que o normal; algo mais assemelhado a um sermão ou a uma declaração homilética ou didática - e a elaboração de tais coisas não é, na realidade, a função do romancista. No momento, encontro-me escrevendo um livro bastante diferente de qualquer outro que eu tenha escrito, e o motivo pelo qual escrevo não é tanto o interesse público por um de meus romances, mas o interesse público por um filme realizado a partir de um dos meus romances.

Tanto o romance quanto o filme chamam-se Laranja Mecânica (Clockwork Orange). Publiquei o livro pela primeira vez em 1962, e desde aquele ano conquistou leitores nos dois lados do Atlântico, o suficiente para garantir sua contínua impressão. No entanto, dez anos depois de corrigir as provas de gráfica, seu título e conteúdo tornaram-se conhecidos por milhões, não apenas milhares, graças à adaptação cinematográfica bastante fiel feita por Stanley Kubrick. Vi-me convocado, então, a explicar o verdadeiro significado, tanto do livro quanto do filme, em todas as mídias públicas dos Estados Unidos, e também em algumas da Europa, e minha explicação tem sido, mais ou menos, a seguinte.

Primeiramente, o título. Ouvi a expressão "tão estranho quanto uma laranja mecânica" pela primeira vez em um pub londrino, antes da 2.ª Guerra Mundial. Trata-se de uma gíria cockney antiga que se refere a uma esquisitice ou insanidade tão extrema que chega a subverter a natureza - afinal, que noção poderia ser mais bizarra do que uma laranja mecânica? A imagem atraiu-me não somente como algo fantástico, mas também como algo obscuramente significativo; surreal, mas também obscenamente real. O casamento forçado de um organismo com um mecanismo; de uma coisa com vida, que amadurece, é doce, suculenta, com um artefato frio e morto - seria apenas um conceito assustador? Descobri a relevância dessa alegoria para o século 20 quando, em 1961, comecei a escrever um romance sobre curar a delinquência juvenil. Li em algum lugar que seria uma boa ideia liquidar o impulso criminoso por meio de terapia de aversão; fiquei estarrecido. Comecei a investigar as implicações dessa noção em um breve trabalho de ficção. O título Laranja Mecânica parecia estar ali, esperando para se vincular ao livro: era o único nome possível.

O herói, tanto do livro quanto do filme, é um jovem delinquente chamado Alex. Dei-lhe esse nome por causa de seu caráter internacional (você não veria um rapaz inglês ou russo chamado Chuck ou Butch), e também graças às suas conotações de ironia. Alex é uma redução cômica de Alexandre, o Grande, talhando seu caminho pelo mundo e conquistando-o. Mas Alex se torna o conquistado - impotente, mudo. Ele fazia sua própria lei (a lex); torna-se uma criatura sem uma lex e sem léxico. Os trocadilhos ocultos, claro, não se relacionam com o verdadeiro significado do nome Alexandre, que é "defensor dos homens".

No início do livro e do filme, Alex é um ser humano dotado, talvez exageradamente, de três características que consideramos atributos essenciais do homem. Ele se deleita com o uso de uma linguagem articulada e até inventa uma nova forma de comunicação (a esta altura, ele está longe de ser aléxico); ele ama a beleza, que encontra, acima de tudo, na música de Beethoven; ele é agressivo. Com seus companheiros - menos humanos do que ele, pois não dão importância à música - ele aterroriza as ruas de uma grande cidade, à noite. Essa cidade poderia ser qualquer uma, mas eu a visualizei como uma espécie de amálgama entre minha nativa Manchester, Leningrado e Nova York. A época poderia ser qualquer uma, mas é, essencialmente, o hoje. Alex e seus amigos roubam, mutilam, estupram, vandalizam; acabam matando. O jovem anti-herói é preso e punido, mas punição não é suficiente para o Estado. Como a prisão não é um inibidor muito eficiente para o crime, o Home Office ou o Ministério do Interior introduz uma forma de terapia de aversão que garante, em apenas duas semanas, eliminar propensões criminosas para sempre.

Alex, em sua inocência, abraça a oportunidade de ser "curado". Ele tem tanta fé na indestrutibilidade de sua própria libido que se considera mais do que um desafio para os especialistas em comportamento do Estado. Injetam-lhe uma substância que provoca náusea extrema, e a deflagração da náusea é deliberadamente associada a violentos. Em pouco tempo, ele não consegue ver cenas de violência sem se sentir desesperadamente enjoado. Fazer amor era, para ele, apenas um aspecto da agressão; portanto, até mesmo observar uma parceira sexual desejável desperta a náusea avassaladora. Ele é forçado a andar por uma corda bamba de "bondade" imposta. A sociedade fica satisfeita e mal pode esperar por um milênio livre do crime.

Mas homens não são máquinas, afinal, e o limite entre um impulso humano e outro é sempre difícil. O tratamento de Alex consistiu em assistir a filmes violentos e sentir a náusea induzida. Tais filmes empregaram trilhas sonoras de música sinfônica como "amplificadores emocionais". Após seu tratamento, o delinquente reformado descobre que não consegue mais ouvir Beethoven sem se sentir desesperadamente doente. O Estado foi longe demais: invadiu uma região além de seu pacto com os cidadãos; fechou para sua vítima um universo de belezas amorais, a visão de ordem paradisíaca que grandes peças musicais transmitem. Perturbado por uma gravação da Nona Sinfonia, Alex tenta cometer suicídio, causando perplexidade e despertando compaixão entre os elementos liberais da sociedade; Alex, então, é submetido a uma terapia hipnopédica que o restaura à sua condição "livre" anterior. Despedimo-nos de Alex enquanto ele sonha com novos e mais elaborados métodos de agressão. A intenção era a de um final feliz.

O que tentei argumentar, com o livro, era o fato de que é melhor ser mau a partir do próprio livre-arbítrio do que ser bom por meio de lavagem cerebral científica. Quando Alex tem o poder da escolha, opta apenas por violência. Entretanto, existem outras áreas de escolha, como ilustra seu amor pela música. Na edição inglesa do livro (mas não na norte-americana, tampouco no filme), há um epílogo que mostra Alex crescendo, aprendendo a desgostar de seu antigo estilo de vida, pensando no amor como algo maior do que uma forma de manifestar violência; até mesmo imaginando-se como marido e pai. Tal caminho sempre esteve aberto; ele, enfim, opta por segui-lo. Antes uma laranja podre, ele agora se preenche com algo mais próximo da doçura humana decente.

Liberdade de escolha é mesmo tão importante? O homem é capaz disso? O termo "liberdade" tem algum significado intrínseco? São questões que preciso perguntar e tentar responder. Devo registrar que fui ridicularizado e criticado por expressar meus receios em relação ao poder do Estado moderno - seja na Rússia, na China ou na que poderíamos chamar de Anglo-América - de reduzir a liberdade individual. A literatura já denunciou esse poder em livros como Brave New World (Admirável Mundo Novo), de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, mas pessoas "sensatas", que não se comovem muito com textos criativos, garantem que há pouco com o que se preocupar. O livro Beyond Freedom and Dignity (O Mito da Liberdade), de B. F. Skinner, foi lançado na mesma época em que Laranja Mecânica surgiu nas telas, pronto para demonstrar as vantagens do que poderíamos chamar de lavagem cerebral benéfica. Nosso mundo está em má situação, diz Skinner, com os problemas das guerras, da poluição ambiental, da violência civil, da explosão demográfica. O comportamento humano precisa mudar - isso, diz ele, é autoevidente, e poucos discordariam - e, para tanto, precisamos de uma tecnologia para o comportamento humano. Podemos deixar de fora desta equação o homem interior, o homem que encontramos quando discutimos com nós mesmos, o ser oculto que se preocupa com Deus, com a alma e com a realidade absoluta. Precisamos enxergar o homem de fora, considerando especialmente o que leva uma característica do comportamento humano transferir-se de um indivíduo para outro. A abordagem behaviorista do homem, da qual o professor Skinner é um grande expoente, prega que ele é levado a vários tipos de ações por estímulos de aversão e não aversão. Medo do chicote fazia o escravo trabalhar; medo da demissão ainda faz o escravo do salário trabalhar. São tais reforços negativos para a ação que o professor Skinner condena; o que ele deseja ver são reforços positivos. Você ensina truques a um animal de circo não por meio da crueldade, mas da bondade. (...)

Com os estímulos positivos certos - aos quais respondemos não de maneira racional, mas por meio de nossos instintos condicionados -, todos nós poderemos nos tornar cidadãos melhores, submissos a um Estado cujo objetivo maior é o bem-estar da comunidade. Não devemos, diz tal argumento, temer o condicionamento. Precisamos ser condicionados para salvar o ambiente e a raça. Mas precisa ser condicionamento do tipo certo.

Segundo o discurso skinneriano, é o tipo errado de condicionamento que transforma o herói de Laranja Mecânica em um nauseado modelo de não agressão. O fato de eu mesmo considerar qualquer tipo de condicionamento um erro deve ser atribuído, imagino, à força da tradição religiosa na qual fui educado. Eu fui, pode-se dizer, condicionado por ela, mas minha consciência aprova as convicções que sinto em meu âmago. Minha família é de Lancashire, um condado ao Norte do Reino Unido que foi uma fortaleza da fé católica. A Reforma Protestante, que transformou a Inglaterra no que ela é hoje, nunca chegou a Lancashire ou, caso tenha chegado, o fez de maneira suave e moderada, nas infiltrações pacíficas dos períodos mais tolerantes que seguiram as sangrentas imposições dos Tudors. O tipo de protestantismo que floresceu na época de Cromwell e criou uma nova estirpe de mercadores burgueses era calvinista. Predestinação era seu eixo doutrinal. O homem não teria arbítrio sobre a própria salvação; seu estado futuro havia sido predeterminado por Deus.

O catolicismo rejeita uma doutrina que parece enviar alguns homens arbitrariamente ao Paraíso, e outros, de maneira não menos arbitrária, para o Inferno. Seu destino, diz a teologia católica, está em suas mãos. Não há nada que o impeça de pecar, se você quiser pecar; ao mesmo tempo, não há nada que o impeça de se aproximar dos canais de graça divina que são a garantia de sua salvação. O fato de duas doutrinas opostas - a do livre-arbítrio e a da predestinação - poderem coexistir na mesma fé religiosa requer explicação. Primeiramente, há a onisciência de Deus. Se Deus sabe tudo, Ele sabe se eu serei condenado ou salvo: meu destino derradeiro foi, digamos, reservado desde o início dos tempos. Mas se Deus dá ao homem o poder da livre escolha, poderia parecer que Ele está deliberadamente renunciando à Sua consciência sobre o que o homem fará com esse poder. Um Deus onisciente e onipotente, em um gesto de amor pelo homem, limita tanto Seu poder quanto Seu conhecimento. (...)

Todos nós poderíamos concordar com o professor Skinner: uma sociedade bem governada e condicionada é algo excelente para uma nova raça - uma espécie de homem racionalmente convencida da necessidade de ser condicionada, desde que o condicionamento seja baseado em recompensas, não em punições. Mas não somos essa nova raça, e teimamos em não ser nada além do que somos . (...)

Poder-se-ia considerar o princípio do mal no âmbito da conduta em que a destruição de um organismo não é intencional. É errado forçar crianças a consumir drogas, mas poucos negariam que é, também, maldade: a capacidade de autodeterminação daquele organismo está sendo prejudicada. Mutilar é maldade. Atos de agressão são maldosos, apesar de sermos propensos a encontrar fatores atenuantes no espírito passional da vingança ("um tipo de justiça selvagem", definiu Francis Bacon) ou no desejo de proteger os outros de esperados, senão praticados, atos de violência. Todos nó guardamos, na imaginação ou na memória, imagens do mal em que não há sequer um sopro de atenuação - quatro jovens sorridentes torturando um animal, um estupro em gangue, vandalismo a sangue frio. Aparentemente, o condicionamento forçado de uma mente, por melhor que seja a intenção social, é maldade. / TRADUÇÃO DE HENRIQUE B. SZOLNOKY

Copyright The Clockwork Condition (A Condição Mecânica) © The Estate of Anthony Burgess

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