A condição humana em papel e letras

Os bastidores, os truques e o sentido da arte da ficção dão corpo a Confissões de Um Jovem Romancista, do italiano Umberto Eco

O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h10

UBIRATAN BRASIL

Aos 81 anos, o escritor Umberto Eco considera-se um jovem romancista. Apesar da vitalidade que ainda o mantém muito resistente, o italiano encontrou uma outra maneira para justificar tal posicionamento. Como seu primeiro texto de ficção, O Nome da Rosa, só foi publicado em 1980 - até então, ele era reconhecido por suas contribuições à estética e filosofia medievais e à semiótica -, começou ali sua nova carreira. Assim, o ficcionista de "33 anos" já ostenta seis romances publicados, um fenômeno considerável, se comparado com autores que, de fato, têm tal idade.

É com esse espírito brincalhão que Eco inicia o pequeno livro Confissões de Um Jovem Romancista, conjunto de observações sobre o fazer literário que sai agora no Brasil. A obra não soma 200 páginas, mas, mesmo num punhado, traz um divertido e brilhante estudo sobre a arte de criar histórias. E, de quebra, serve também para mostrar como o romancista Umberto Eco, além de jovem, é muito vaidoso.

O italiano conta que, até o fim da década de 1970, via poetas e artistas em geral como prisioneiros das próprias mentiras, ao passo que ele, estudioso de filosofia, tinha acesso ao verdadeiro mundo das ideias. Ao ser convidado por uma amiga para escrever um conto policial, Eco descobriu que era chegada a hora de invadir o espaço da ficção. O conto acabou não sendo feito, mas, de posse de uma página na qual havia escrito alguns nomes de monges, ele desenvolveu a trama do envenenamento de um religioso que lia um livro misterioso e que se transformou em um best-seller mundial: O Nome da Rosa.

Eco, sem modéstia, comenta que não foi difícil escrever a obra, pois carregava uma experiência de pesquisas e visitas a abadias românicas e catedrais góticas. Bastou dar conta da própria curiosidade sobre a história do monge assassinado. A partir dos livros seguintes, a situação ficou mais complicada pois o autor acreditava que havia colocado em sua ficção de estreia tudo o que, de modo até mesmo indireto, podia dizer algo sobre ele. Passou, então, a viver de indagações, no meio das quais descobria a mais intermitente, capaz de fazê-lo voltar a escrever.

Nesse ponto, Eco sacia o leitor curioso ao oferecer-lhe um cardápio de boas histórias de bastidores, algo como os extras de um DVD. Assim, detalha como O Pêndulo de Foucault nasceu de sua incredulidade diante do próprio pêndulo de Léon Foucault, físico parisiense (ele se esforça, aliás, para deixar claro o seu descontentamento diante de quem acreditava se tratar de Michel Foucault, o pensador francês). E ainda como o lampejo para A Ilha do Dia Anterior surgiu quando um jornalista o elogiou por descrever espaços tão bem.

Como tem um nome a zelar, Eco logo encerra a fase das fofocas eruditas para entrar no campo em que é imbatível: a dissecação do texto literário. Começa dizendo que, desde seu início na ficção, utiliza duas técnicas tipicamente pós-modernas. A primeira é a que chama de ironia intertextual, ou seja, o uso de citações diretas de outros textos famosos ou referências mais ou menos transparentes a eles. A segunda é a metanarrativa, que vem a ser um conjunto de reflexões que o texto faz de sua própria natureza, quando o autor fala diretamente ao leitor.

É nesse ponto que Confissões de Um Jovem Romancista se torna irresistível, com Eco explicando de modo cristalino as diferenças entre o desejo inicial do romancista e como isso vem a ser digerido e interpretado pelos leitores. Ele mesmo não esconde seu assombro com a quantidade de versões sobre a origem de suas obras ao longo dos anos, verdadeiras teses sobre as quais ele jamais havia pensado ou, mais incrível, jaziam esquecidas em seu inconsciente e misteriosamente invadiram a escrita, sendo descobertas apenas por leitores atentos.

A obsessão dos fãs, aliás, provoca a ruptura entre ficção e realidade, uma vez que locais e fatos relatados pelo escritor são postos à prova pelos leitores, que realizam a mesma trajetória dos personagens ou invadem bibliotecas em busca de dados comprobatórios. É a dica para Eco orientar seu livro para outro caminho delicioso: a origem das personagens de ficção e a capacidade que têm de se parecerem mais reais que a própria realidade.

Para exemplificar, ele conta a história de Alexandre Dumas, pai, que, em 1860, visitou, em Marselha, o Château d'If, onde seu herói, Edmond Dantès, antes de se tornar o conde de Monte Cristo, ficou encarcerado por 14 anos. Pois Dumas descobriu que os visitantes eram convidados a conhecer a "verdadeira" cela em que Dantès ficou preso. Mais: os guias locais tratavam os personagens do romance como se de fato tivessem existido. O que obrigou Dumas a escrever em suas memórias: "É prerrogativa de romancistas criar personagens que matam aqueles dos historiadores. A razão é que os historiadores evocam meros fantasmas, enquanto os romancistas criam gente de carne e osso".

A discussão prossegue com Eco ponderando sobre a credibilidade conquistada por um personagem criado por Tolstoi, como Anna Kariênina, em detrimento da notícia de que Hitler fora encontrado morto em seu bunker, no fim da 2.ª Guerra Mundial. Surge o confronto entre ontologia e semiótica, que o autor italiano destrincha com habilidade: "A ficção sugere que nossa perspectiva do mundo verdadeiro talvez seja tão imperfeita quanto a visão que os personagens de ficção têm de seu mundo. É por isso que os personagens de ficção bem-sucedidos se tornam exemplos supremos da condição humana 'real'".

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