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A comédia dos Mutantes a dois passos do inferno

O 3.º álbum dos Mutantes é o próximo título da coleção Grande Discoteca Brasileira do Estadão, nas bancas amanhã. A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, de 1970, traz Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee mais anárquicos do que nunca. Com arranjos orquestrais de Rogério Duprat, produção de Arnaldo Sacomani, Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria, Raphael Villardi no violão e nos vocais e Naná Vasconcelos na percussão em duas faixas, o disco evoca Deus (Haleluia) e o diabo (Ave, Lúcifer), sexo (Quem Tem Medo de Brincar de Amor), drogas (Ando Meio Desligado) e outras doideiras, misturando rock e latinidade.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

A estranheza começava pela capa em preto e branco com o grupo numa réplica de uma famosa gravura de Gustave Doré para A Divina Comédia, de Dante Alighieri, em uma nova visão dos infernos. Para a moral da época, a contracapa era ainda mais provocativa: Rita na cama deitada entre Sérgio e Arnaldo sem camisa e um outro homem em pé (o baterista Dinho) trajando um uniforme militar como um nazista, tomando o café da manhã com eles.

A censura nem implicou tanto com mais essa molecagem do trio, mas com Quem Tem Medo de Fazer Amor, que teve o título trocado. A letra de Ave, Lúcifer, mais lasciva, passou batida pela tesoura oficial: "Anjos e arcanjos não pousam neste éden infernal... / Quieta, a serpente se enrola nos seus pés/ É Lúcifer da floresta que tenta me abraçar."

Mais diabólico do que isso só a versão paródica do clássico da seresta Chão de Estrelas (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa). Usando sonoplastia para "comentar" cada imagem da letra da canção, eles a demoliram, para ódio dos puristas, criando uma versão hilariante com a interpretação debochada de Arnaldo. Depois disso ficou impossível levar a sério a original.

Outras boas experimentações, com sonoridade mais pesada que nos dois primeiros discos, estão em Meu Refrigerador Não Funciona, Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo (um raro insucesso de Roberto e Erasmo Carlos) e na instrumental Oh, Mulher Infiel. Além da faixa-título, que se tornou um dos clássicos do grupo, o disco teve mais dois relativos êxitos populares: Hey, Boy e Desculpe, Babe.

Nesta, a letra parece embutir outra provocação, só que entre eles. A dois passos de mergulhar no inferno da relação com Arnaldo, Rita foi correndo buscar a glória naquele ano, com a estreia solo, Build Up, que anunciava: "Sucesso, aqui vou eu." Era o começo do fim. O grupo só gravaria mais dois álbuns com Rita, além de seu segundo solo (Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, de 1972) e Technicolor (1970), para o mercado europeu, lançado em 2000.

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