A colunista agridoce

Cheryl Strayed dava conselhos na internet, virou memorialista e terá vida filmada

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 11h03

Poucos escritores americanos conseguem conciliar qualidade literária e sucesso. Cheryl Strayed é um desses exemplos raros. Dois de seus livros viraram best-sellers sem fazer concessões. O mais recente, lançado esta semana no Brasil, chama-se Pequenas Delicadezas - Conselhos sobre o Amor e a Vida (Objetiva, 288 págs., R$ 39,90). O título sugere um livro de autoajuda - e é, considerando que muitos dos problemas relatados a Cheryl em sua coluna online Dear Sugar (Cara Doçura) são muito frequentes, e não só entre os americanos. A obra é uma compilação das cartas respondidas pela escritora entre 2010 e 2012, num site literário chamado The Rumpus (Agitação). Não são perguntas comuns - menos ainda as respostas. Colunas de aconselhamento focam nos leitores, tentando tornar suas vidas menos dolorosas. A de Cheryl subverteu todos os códigos das colunas do gênero, revelando que a autora tem tantos problemas como seus consulentes.

Cheryl fez um pacto consigo mesma ao substituir Steve Almond na tarefa de assinar a coluna: falar a verdade. Por vezes, ela choca, ao revelar que foi alvo de assédio sexual do avô, ou como o ex-marido extrapolou os limites de sua fantasia sexual e tornou-se agressivo como seu pai. Quem leu seu livro de memórias Livre (Wild, no original), que começa a ser filmado em outubro com roteiro de Nick Hornby, sabe o que esperar. Quem ainda não leu, deve comprar os dois. Livre conta como a escritora, após perder a mãe, o marido e o dinheiro, decidiu, aos 26 anos, recomeçar do zero, fazendo uma caminhada solitária pelo deserto do Mojave. Hoje, aos 45 anos, ela alcança a plenitude: quem vai interpretar seu papel no cinema é Reese Witherspoon. Por telefone, Cheryl falou ao Caderno 2.

Depois de um ano escrevendo Cara Doçura, Steve Almond desistiu da tarefa. Por que você aceitou ficar em seu lugar?

Achei interessante escrever de forma anônima (ela só revelou sua identidade em fevereiro do ano passado, durante uma festa em São Francisco). Eu mesma havia escrito para a coluna, elogiando o estilo do autor, sem saber que era meu amigo Steve Almond. Da mesma forma, outras pessoas começaram a desconfiar que minhas revelações e o modo de escrever guardavam semelhanças com Livre. Reconhecido meu estilo, não tive alternativa, pois é impossível guardar segredos na internet. Além disso, começou a ficar pesada essa exposição.

Por falar em exposição, seu livro de memórias, Livre, vai ser filmado. Por que o roteiro foi entregue a Nick Hornby?

Sou a produtora do filme, que terá Reese Witherspoon como protagonista, e, sendo casada com um diretor de cinema (o documentarista Brian Lindstrom), sei por experiência que não é bom acumular funções num filme. Mas adorei ter Hornby como roteirista e Reese no meu lugar.

Livre conta como você decidiu caminhar 1.700 quilômetros pela Pacific Crest Trail, no deserto do Mojave, após perder a mãe e se divorciar. Você parecia estar em queda livre. O que a fez pensar ser capaz de aconselhar pessoas desesperadas em sua coluna?

Quando comecei a escrever como Doçura no The Rumpus, não pensava em me colocar numa posição superior, dando conselhos a torto e a direito. Minha coluna não queria ensinar ninguém a viver, mas dividir com pessoas que sofrem minhas experiências igualmente dolorosas, tentando criar certa empatia com os leitores (e havia entre eles dependentes de álcool, desempregados viciados em drogas e garotas às voltas com abortos, como se lê no livro). Quis mergulhar profundamente nas respostas, ir além da pergunta.

E qual foi a pergunta mais difícil de responder?

Como recomeçar a vida na idade madura. Era essa a pergunta de um senhor criado no Sul, casado há mais de 20 anos, com quatro filhos, que tem um problema na coluna, toma drogas pesadas para suportar a dor, depende de álcool e perdeu o plano de saúde quando faliu. Foi doloroso encontrar uma resposta, mas implorei para que ele frequentasse os Narcóticos Anônimos e os Alcoólicos Anônimos.

Por que você expôs sua vida pessoal ao responder questões de seus leitores? Algo a ver com a tática da artista francesa Sophie Calle, conhecida por revelar sua intimidade?

Nada a ver com ela, mas sim para mostrar aos leitores da coluna que eles não eram os únicos a ter problemas. É preciso correr o risco de dizer a verdade. O medo não deve paralisar ninguém - e foi sem temer o julgamento dos leitores que eu falei de minha vida privada.

Você é conhecida como memorialista, mas escreveu belos ensaios, um deles sobre Alice Munro. Pretende voltar ao romance?

Sim, brevemente. Gostaria de ver publicados esses ensaios, em especial porque considero Munro minha deusa.

CHERYL STRAYED, ESCRITORA

"Que eu não tivesse escrito um livro quando cheguei aos 28 anos era um triste choque para mim. Eu esperava...coisas mais grandiosas de mim mesma. Eu era um pouco como você, Elissa Bassist. Sem um livro, mas não inteiramente sem a aprovação literária. Tinha ganhado algumas bolsas de estudos e prêmios, publicando algumas histórias e ensaios."

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