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A cobra vitoriosa

Ingratidão gera traição e as duas são partes simbióticas da serpente que rasteja em todos

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

No jardim da alma, a cobra mais venenosa é a ingratidão. Parece frase de um manual de moral antigo, com suas metáforas, mas é verdade. Devotar raiva a quem o ajudou ou, simplesmente, ignorar o benefício concedido é um defeito terrível de caráter. 

Quando Dante Alighieri imagina o pior pecado, aquele que deve ser punido com a pior pena, ele identifica a felonia. A palavra deixou de ser comum, porém era fundamental na Idade Média. Felonia é a traição a superiores e benfeitores, a falta de devoção a quem nos ajudou, pagar com o mal o bem distribuído. Em sentido amplo, é um ato desleal de um vassalo, uma insurreição, a perfídia de alguém que foi amparado e dá, em troca, maledicência, quebra de juramento e até violência. Lá, no mais fundo do inferno, no último de seus círculos, estão Judas, Brutus e Cássio sendo devorados pelo próprio chefe da casa. O primeiro, todos sabem, foi o traidor do Mestre. Os dois últimos foram assassinos de Júlio César. Ingratidão com um superior era o que de pior o poeta florentino conseguia imaginar. 

O ódio nasce de um impulso violento, é uma resposta a uma ofensa considerada grave. A ira é um pecado capital. A felonia é mais grave ainda: significa desagradecimento venenoso contra uma fonte de bem, e pagar o benefício com a traição mostra o pior do ser humano. Por que você me odeia, se eu nunca o ajudei? O ditado oriental é rico em significados. Esse valor ultrapassa fronteiras e está em nossa música popular: “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”, canta Beth Carvalho. 

Tácito lançou uma frase devastadora sobre nossas sombras pessoais. O historiador romano diz que os homens se apressam mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer. É enorme o sentido da frase. Quem me ajudou marca uma inferioridade minha. Se precisei de socorro, tenho de reconhecer que fui menos naquele momento. A presença do benfeitor traz à tona a memória da benesse concedida e, por consequência, da minha fraqueza. 

Vingar-se traz o poder de volta ao meu eu. Quando me vingo, entro novamente no modo protagonista de ser e posso exercer a plenitude da minha potência. Talvez seja esse o sentido de que a vingança carregue um prazer. É algo, garantem os espanhóis, para ser degustado a frio, passado um tempo entre a ofensa sofrida e a vingança. Assim, a preparação fica mais extensa e pode ser aumentada. 

Parte do incômodo que determinados filhos têm com os pais diz respeito a essa lembrança da fragilidade que todos ostentamos em alguns ou muitos momentos da vida doméstica. O sorriso amoroso de mãe e o afago afetivo de pai evocam, por consequência, a memória da criança frágil que fui, imerso em carência, acovardado das sombras e dependente até da habilidade dos progenitores para cortarem meu bife. O olhar de quem me gerou desnuda as pretensões e atualiza minha ficha corrida de gafes, manias, defeitos e tropeços. Como é complexo montar cenografia de vaidade diante de quem limpou nossas fraldas repletas. É complexo lidar com esse amor/gratidão que rememoram nossa óbvia infantilidade. 

Curioso que a maioria das pessoas é impaciente quando os pais envelhecem e passam a ter atitudes irresponsáveis (frutos da senilidade): isso parece avivar o desastre que fomos e torna ainda mais difícil a relação. Será que a senilidade paterna chama nossa infantilidade e nos machuca? Será que funciona como um espelho incômodo do que serei e da minha impotência diante do tempo? 

Além do plano pessoal, a política moderna é o campo por excelência da quebra da gratidão. O campo para o qual Aristóteles mais pensou a ética é justamente um deserto da moral, um pântano das certezas e da fidelidade. A volubilidade dos políticos com partidos e grupos diz respeito ao seu universo prático, materialista e dos jogos teatrais de imprensa. Ficar ao lado de quem tem poder e usufruir dele implica, permanentemente, trair quem não tem ou deixou de ter a única moeda válida. A espinha dorsal do indivíduo político é, usualmente, de uma maleabilidade épica. 

Temos exemplos variados. O deputado paranaense Onaireves Moura era da tropa de choque em apoio ao presidente Collor. Perto do desenlace do impeachment, chegou a oferecer banquete para o grupo ligado a Collor, em cena de apoio explícito. Na hora da votação sobre a abertura do processo, 29 de setembro de 1992, para surpresa (ou não) de todos, o deputado votou pela abertura do processo que, no final do mesmo ano, levaria o presidente Collor a ser afastado do cargo. O que provocou a brusca ruptura de posição política do deputado Onaireves Moura? Obviamente, o detalhe central está na percepção da inevitabilidade dos favoráveis ao afastamento. A traição, neste caso, é clássica em política: salvar-se e não estar no lado perdedor. É a lógica dos ratos em naufrágios. Há outra esfera, no fundão do inferno, para traidores políticos: a Antenora.

Ingratidão gera traição. As duas são partes simbióticas da serpente que rasteja em todos. A serpente foi condenada a deslizar sobre o ventre por ter traído seu Criador e invejado a criação de Adão e Eva. 

Nós, brasileiros, estamos irritados com o conceito de política porque o confundimos com as práticas dos políticos. Condenamos os nossos malfeitores. Estaríamos preparados para perdoar um benfeitor? Seríamos capazes de suportar o bem realizado pelo Messias pelo qual suspiram almas sebastianistas, vindo em seu corcel branco livrar a Terra de Santa Cruz de seus males? Messias costumam ser crucificados. Serpentes perdem as patas, no entanto, sibilam com sorriso irônico, pois conhecem a natureza humana. Bom domingo a todos vocês. 

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