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A cizânia

Shakespeare já foi considerado um bom autor, um escritor medíocre, um dramaturgo vulgar e o supremo gênio do teatro inglês, dependendo da época e do crítico

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 03h00

História curta e real: há muitos anos, eu e um grande amigo dávamos aula em um curso privado. Ele deu aos alunos um texto complexo e, como costuma acontecer, incendiou-se a rebelião. Protestos, reclamações, balbúrdias e xingamentos ecoaram na sala. Na semana seguinte, uma aluna que não estivera na aula da crise aproximou-se e perguntou qual era a leitura. Meu amigo José Alves comentou: “Ah, o texto da cizânia...” A aluna logo emendou: “Não, professor, a autora tinha outro nome, não era cizânia”. 

Talvez o bizarro do episódio não seja o desconhecimento de um vocábulo, algo natural em qualquer pessoa, especialmente em formação. Todos, absolutamente todos, possuímos lacunas de formação. A questão foi levantada pela minha amiga Valderez em uma conversa: na juventude, quando surgia uma palavra fora da nossa compreensão, tínhamos um misto de vergonha (pela nossa ignorância) e curiosidade em buscá-la no dicionário. Tínhamos consciência de que o problema estava conosco. Algo mudou. A novidade do mundo atual é que, sempre que um autor expuser ideias de forma que eu não capte imediatamente ou utilizar palavras fora do meu conhecimento, é o autor o responsável e culpado, jamais eu, o leitor. Não existe mais o reconhecimento da minha incapacidade ou, pelo menos, a suspeita de que eu seja o elo frágil da cadeia do saber. 

Euclides da Cunha utiliza muitas palavras científicas ao descrever o meio nordestino na primeira parte dos Sertões? Só pode ser falta de clareza. Shakespeare apresenta muitas personagens em Ricardo III? Debilidade de foco narrativo, por certo. A oração do padre Vieira é longa? Ele deveria ter dificuldade com formas sintéticas e claras de expressão. Nada acontece de prático na Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector? Deve ser a imaginação tíbia da ucraniana/brasileira. José de Alencar é “enrolado”, Saramago não domina o conceito de parágrafo, Carlos Drummond de Andrade é “banal” e Plínio Marcos, um “autor vulgar”? Suponho que eles nunca fizeram um curso de escrita criativa... Li termos desconhecidos como “ebúrneo”, “hebetismo” ou “esputar”? O autor só pode ser preciosista e barroco demais. Eu sou o mítico leito de Procusto que corta excessos e estica miudezas, para que caibam na régua absoluta do meu território cerebral. O processo está piorando e vale para todos os campos: artes plásticas, literatura, moda e gastronomia. 

Educadores e escritores, temos culpa no cartório da cizânia. Uma parte do ônus é nem sempre apresentar os caminhos claros para que cada leitor desate nós de dificuldades. Minha tarefa seria sempre revelar a beleza de um autor menos óbvio e tentar mostrar a riqueza de um Éden guardado pela espada flamejante do arcanjo do léxico. A outra responsabilidade nossa é não ensinar que gosto é um direito subjetivo e não uma medida universal. Exemplo: aprender que você pode não gostar dos quadros de Pollock ou do texto de Valter Hugo Mãe, mas que essas propostas são maiores do que você e sobreviverão ao pífio bocejo da sua escolha. O mesmo vale para todos os seus entusiasmos. Mesmo que você não tenha conseguido escalar a Montanha Mágica ou acompanhar a jornada de Bloom, Mann e Joyce, eles continuarão lá depois que sua lápide tiver virado pó e seu nome desaparecido do rol dos viventes lembrados. 

Importante ressaltar: necessito dar perspectiva ao meu gosto, não de ceder a cânones alheios. Isso não quer dizer que tudo seja bom ou que você, querida leitora e estimado leitor, tenha de aceitar qualquer coisa. Apenas e tão somente implica dizer: há coisas maiores do que meu gosto e espaços mais amplos do que os meus limites. Talvez até você tenha notado uma fala em um autor consagrado ainda não percebida e, quando seu atual brilho coruscante tiver esmaecido, sua opinião terá uma validade que hoje não parece possuir. Shakespeare já foi considerado um bom autor, um escritor medíocre, um dramaturgo vulgar e o supremo gênio do teatro inglês, dependendo da época e do crítico. Qual será a opinião final sobre o Bardo? Não sabemos e nunca saberemos. Apenas tenho de intuir que existe a remota hipótese de o meu gosto não coincidir com o tribunal da eternidade. Como eu já disse em sala de aula diante de um clássico que eu precisava expor: “Hoje, eu os convido, alunos, a reconhecerem que vocês não são Deus”. Era uma frase divertida há trinta anos diante de um trecho da Divina Comédia, de Dante. Hoje é um método.

“Eu não entendi” fala de mim, nada diz do texto. Talvez, eu necessite de mais de uma leitura, ou de mais esforços de decifração. Quiçá seja o caso de reconhecer que há autores que implicam mais formação e eu esteja “verde” para aquela empreitada. Pode ser, inclusive, que se trate de texto sem sentido mesmo, mas a humildade ajuda a não usar apenas a hipótese final e virar a raposa que contempla uvas inatingíveis com desdém. Trata-se, enfim, de pensar a cizânia como uma simples ilusão produzida pela minha ignorância. 

A expressão já consagrada de leitores jovens em inglês: “muito comprido” e “não li” (too long e didn’t read – TL e DR) nunca deveria ser dita com orgulho. Muito comprido explica uma parte da questão e pode não ser a extensão excessiva, apenas, provavelmente, o caráter raso da minha paciência ou capacidade. Quando o côncavo não se encaixa bem no convexo, pode ser responsabilidade de um ou de outro. Claro: extensão não é sinônimo de qualidade. Maryanne Wolf lembra que um dos mais impactantes contos de Ernest Hemingway tem seis palavras: for sale, baby shoes never worn (vendem-se: sapatos de bebê nunca usados). O impacto emocional do texto é imenso. A inteligência pode vir em dedais exíguos ou em imensos tonéis. A ignorância também. Bom domingo para todos nós!

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