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A civilização capilar

Há charme na epiderme à mostra, mas a música assegura que os carecas agradam mais

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 02h00

A cabeça é símbolo maior de identidade. Junto da digital, seu RG traz uma foto de seu rosto, não de seu pé. E nada parece concentrar tanto esforço e atenção quando a cabeleira ou a falta dela. Em todos os momentos da vida, ter cabelo ou cortá-lo é assunto. Exemplo banal: passou no vestibular? O rito de passagem inclui a retirada de todo o cabelo. O novo universitário deve emergir renovado com novo crescimento capilar. 

Na Idade Moderna as elites europeias usaram perucas. Altas cortes britânicas e até algumas nas ex-colônias preservaram o hábito. Penteados artísticos e fios com cores fortes são um novo objeto de marketing de jogadores de futebol e cantores. A cabeça é o ponto mais alto e o que deve receber mais atenção, pelo visto. Alienígenas que visitam nosso planeta, quase sempre, são representados sem cabelo. Seria uma mostra de serem mais avançados ou uma lembrança de que não seriam humanos?

Jô Soares segredou-me certa feita que um dos inconvenientes de ser gordo era virar referência. “Senta ali, do lado daquele senhor mais forte”, eufemismo usual e aceitável. Nós carecas também somos um ponto de localização. Gordura e calvície constituem um sinal que nos antecede antes do próprio nome.

Sócrates era calvo. Foi descrito assim e com outros adjetivos ainda menos alvissareiros no Banquete, de Platão. Também Aristóteles para explicar os conceitos de essência e acidente usou o exemplo da calvície do mestre: Sócrates é Sócrates e sempre o foi, mas é careca por acidente da vida. Em outra tradição, mais uma calva famosa: Paulo de Tarso é tradicionalmente representado sem cabelos. 

A arte também tem muitos carecas. De Picasso a Lorenzo Ghiberti, que moldou sua própria falta de madeixas nas Portas do Paraíso em Florença, os exemplos são muitos. A religião é outra que pode afetar a cobertura capilar. Alguns monges budistas e os sacerdotes egípcios eram e são estimulados a evitar a cobertura capilar. Sinal de devoção, respeito ou combate à vaidade, muitas crenças interferem nos cabelos. 

Quando alguém tem idade respeitável, pensa na careca de Yul Brynner (1920-1985), especialmente no filme como o rei do Sião (1956 - The King and I). Dizia-se, na época, que ele parecia mais masculino por esse detalhe. Uma geração seguinte mirou no detetive Kojak (com o ator Telly Savalas) com reluzente cabeça e hábito de apreciar pirulitos. Avancemos para mais uma geração e o modelo passa a ser o maduro Bruce Willis (1955) que nos permitiu assistir de camarote ao suicídio dos seus fios ao longo de muitos anos. Jovens lembrarão do professor Xavier dos X-Men, vivido pelo ex-capitão Jean-Luc Picard, interpretado pelo britânico Patrick Stewart (1940). Vin Diesel (1967) também pertence à mais recente safra de carecas, assim como Samuel L. Jackson (1948). 

Nada contra os cabeludos. Eles também têm representantes em todos os campos. Leonardo da Vinci orgulhava-se dos seus cachos abundantes. A Vênus de Sandro Botticelli nasce exuberante, com cabelos longos e avermelhados caindo até suas coxas. Na arte, muitas vezes, cabelos soltos foram símbolo da mulher solteira ou virgem. Cabelos presos eram associados às casadas. Cabelos cobertos por touca eram indicativo de serviçal. 

Mas, convenhamos, quem possui muito cabelo gasta um tempo enorme realçando e tratando da sua juba. Os que não possuem, por sua vez, consomem um tempo enorme disfarçando, aplicando protetor ou escolhendo bonés e chapéus. A dor da ausência provoca extremos que beiram o caricato, como perucas ou penteados que puxam os fios remanescentes para cima ou para o lado. Como sempre, calvície funciona como burrice: a tentativa de disfarçar chama mais atenção. Uma peruca masculina, já disse aqui, tem imenso poder hipnótico para o interlocutor.

 

Toda tentativa de relativizar ou contradizer a calvície soa como compensação dolorosa. Minha mala é menor do que a sua, afirmo eu pela não necessidade de xampu, condicionador ou secador. Meu banho dura minutos, não tenho cabelos. Sou imune a piolhos, constatei em um grupo de crianças infestadas pelo mal. Podemos entrar no campo das referências macabras: quando eu fizer quimioterapia, ninguém notará. Tudo é verdade, mas quase todos os carecas do mundo superariam todos os óbices para voltar a possuir as melenas do passado. Podemos sempre nos adaptar a tudo, como nos moldamos à velhice ou à crise. Isso não impede nosso canto fúnebre permanente pelos fios que possuíamos. 

Nenhum remédio exclui um certo toque ambíguo. Há o boato de uma pílula eficaz, todavia tem o efeito colateral da impotência. Se for verdade, asseguro parecer um homem mais jovem mantendo o cabelo e acabo virando, de fato, mais velho pela incapacidade sexual. Dilema angustiante. Alguns fazem implantes e o resultado, por vezes, é de um cabelo de boneca. Rapar a cabeça por completo, como eu faço, pode ser uma diatribe um pouco mais digna do que a peruca, mas também é um gesto teatral. Dialética suprema: rapo a cabeça para que não notem que sou careca...

A careca reluzente tornou-se, para mim, uma assinatura, uma marca pessoal. Em arte, chamamos a isso estilema, a característica que marca as escolhas de cada pintor. Algumas mulheres, generosas, dizem ver charme na epiderme à mostra. A música assegura que os carecas agradam mais. As propagandas, porém, mostram que o modelo de densa cobertura ainda é o ideal de beleza.

O mais incrível é imaginar o esforço demandado por cabelos abundantes ou ausentes. Somos uma civilização capilar que tinge, trata, hidrata, rapa, lava, penteia, enrola, disfarça e discute, sem cessar, o cabelo. Um dia, no futuro, alguém vai se perguntar por que tanta importância por células mortas. Provavelmente, quem o fizer será, como este cronista, completamente careca. Bom domingo para todos nós. 

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