Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

A ciranda amorosa de três jovens tristes

Não perca a história de auto-engano de Inverno da Luz Vermelha, na Faap

Análise: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Uma história situada entre quatro paredes - porque se refere a acontecimentos afetivos e sexuais - poderia, em princípio, ajeitar-se confortavelmente entre as três paredes do palco. É uma acomodação que o espetáculo Inverno da Luz Vermelha, dirigido por Monique Gardenberg, evita de modo obstinado.

Os três jovens, que na peça do dramaturgo americano Adam Rapp iniciam uma ciranda amorosa quando estão enclausurados em um hotelzinho barato estão, no espetáculo, situados na zona difusa das extensões psíquicas. Estão no vazio, apenas emoldurados por linhas desenhadas - e os econômicos objetos de cena sugerem mais do que preenchem.

Quase com o mesmo peso significativo do espaço, a música emergindo das circunstâncias dramáticas ou se impondo como recurso cênico tem função de ressonância, ampliando a vivência íntima de personagens singulares. Na construção visual de cada personagem em cena, os gestos e figurinos relembram de modo impreciso os tipos dos romances quadrinizados: o machão rock-pauleira, o tímido "cê-dê-efe" e a garota topa-tudo.

Juvenil. Trata-se, está claro, da estilização refinada de alguns itens do repertório juvenil mundial e é a leitura a um só tempo amorosa e crítica da cultura de massa que permite à encenação combinar o velho surrealista Tom Waits a uma delicada visualidade neo-romântica. São sugestões do texto as referências musicais norte-americanas, mas não há como localizar a iconografia do espetáculo. Quem já leu ou folheou as prestigiadas criações de Fábio Moon e Gabriel Bá reconhecerá um paralelismo de linguagem entre esses quadrinhos muito paulistanos e o desenho das personagens em cena. Talvez haja a mesma semelhança com a delicadeza de traço e a melancolia dos mangás.

Enfim, quem quiser estabelecer relações entre elementos que o espetáculo mobiliza e os postos avançados da cultura pop terá com que se divertir, mas a função primordial dessas referências é, a julgar pelo efeito da encenação, a de dilatar a perspectiva da experiência amorosa. Livres para eleger seu objeto amoroso sem dar bola para as convenções sociais, religiosas ou mesmo éticas, os amantes imaginados por Adam Rapp sofrem tormentos diversos - e talvez mais graves - do que os das gerações anteriores. Não é mais necessário batalhar contra instituições ou pessoas a fim de obter como prêmio o ser amado e, contudo, na planície descortinada por essa liberdade a ânsia amorosa continua ardendo. Na ótica da peça, amor é antes de tudo falta, projeção do desejo sobre a figura do outro e, por essa razão, fulminante como a paixão à primeira vista dos dramas românticos. Em vez do cinismo, da banalização e do mero consumo erótico, bastante explorados por uma vertente da dramaturgia contemporânea escrita em várias línguas, este trio formado por dois amigos e uma prostituta pescada ao acaso reage, ainda sem consciência disso, contra as interpretações pragmáticas da vida passional.

O que não está na consciência da personagem e, portanto, não se transforma em discurso ou ação, cabe ao espetáculo revelar. Embora sejam ordenadas e até previsíveis, as sequências da peça definem características das personagens, resumo da história pregressa e roteiro de ações sem que cada personagem, individualmente, compreenda o resultado da sua atuação sobre a outra. Percorrem um trajeto circular de idealizações e a figura final, a da vitória de Tânatos sobre Eros, é um significado que os atores constroem em cena sem que as personagens tenham ciência do modo como funcionam em conjunto.

Há qualidades apreciáveis no espetáculo, mas talvez a maior delas seja ter orquestrado com muita delicadeza a interdependência entre essas personagens impulsionadas pelo autoengano. O músico machão, interpretado por André Frateschi, torna perceptível - sob a linguagem grosseira e a aparência agressiva_- a tonalidade carinhosa do amigo fiel que deseja ser útil e imagina ter sido. Indo na contracorrente do texto, André Frateschi controla a expansão da personagem e é nas freadas que se torna perceptível a ternura do forte pelo fraco.

Sensual. Tão delicada na expressão da sensualidade quanto na revelação da carência amorosa da sua personagem, Marjorie Estiano faz um trabalho que fica a léguas de distância dos clichês sobre prostituição que proliferam no cinema e no teatro. No lugar da aventureira de bons sentimentos, a atriz de voz suave e movimentos graciosos na primeira parte da peça é uma figura em baixo relevo, quase translúcida, deixando claro que a atração que exerce sobre um dos rapazes e o interesse que manifesta pelo outro transcendem a esfera da sexualidade.

Rafael Primot ganhou de presente um personagem que qualquer ator adoraria: é o intelectual subestimado, gago e desengonçado, com um fraco pelas meninas bonitas que não poderá ter. É a figura mais óbvia e saliente entre os três jovens e, por essa razão, uma isca para exibicionistas. O ator escapa da armadilha trabalhando em baixo relevo nas cenas dialogadas. É uma interpretação que explora mais a mágoa e a fragilidade do que os traços cômicos do desajustamento. O resultado é tão empático que chega a provocar na plateia exclamações comiseradas.

Dores da alma não têm pátria, mas talvez não haja no Rio de Janeiro, Londres, Paris ou Tóquio outro vitrozinho de quitinete abrindo-se para corredores sombrios como os de São Paulo. A cenografia de Daniela Thomas registra em instantâneo a solidão paulistana e cada cidade é solitária a seu modo.

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