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A cidade oculta de Pablo Trapero

É o Cidade de Deus do diretor, que fala de violência social e conflitos religiosos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h07

Começa de forma muito intensa, com um massacre cometido por pistoleiros na selva. Há uma testemunha da chacina, e o espectador não sabe direito quem é, porque ele - é um homem - se esconde para escapar do tiroteio. Mais tarde, padre Nicolas, pois se trata de um religioso, vai se arrepender do que fez, somando a esta culpa uma outra, já que se envolve com uma assistente social. O filme é Elefante Branco, de Pablo Trapero, que estreia hoje em diversas capitais, mas com poucas cópias.

Trapero é um dos novos talentos mais em evidência do cinema argentino. Tem vindo com frequência ao Brasil - com a mulher, a atriz Martina Guzmán, que faz a assistente social, e o filho de ambos, Matteo. O 'pibe' ainda estava no ventre da mãe quando Marina e Trapero vieram mostrar El Bonaerense em 2002. Nicolas é Jéremie Rénier, que o cinéfilo se acostumou a ver nos filmes dos irmãos Dardenne, mas por mais importantes que sejam Marina e ele, o protagonista é o maior astro da Argentina - Ricardo Darín.

Como há uma primeira vez para tudo, o sedutor Darín, um ícone da virilidade (sensível) no cinema argentino, interpreta o padre Julián. Devotado às causas sociais, ele atua numa comunidade que se desenvolve à sombra do elefante branco do título - um gigantesco hospital cuja construção foi iniciada nos anos 1930, para ser o maior da América Latina. A obra foi interrompida, retomada sob o peronismo nos anos 1950 e novamente interrompida. O prédio deteriora, é ocupado por drogaditos. Padre Julián tenta se manter à margem da guerras de traficantes, Nicolas enfia os dois pés dentro dela.

Trapero tem lidado com os temas da violência e das desigualdades sociais, mas aqui ele talvez tenha feito o seu Cidade de Deus - a comunidade, por sinal, é conhecida como Cidade Oculta. Além do massacre do começo, o filme tem outra cena forte, mais perto do fim - o enfrentamento com a polícia, que quer desalojar os manifestantes. Garoto drogado matou policial que se havia infiltrado entre os religiosos e isso desperta a truculência dos colegas de farda do morto. O diretor filma bem as cenas de violência e integra, de forma natural, a atração que o jovem padre e a assistente sentem um pelo outro. Quando ele manifesta sua culpa, o espectador não sabe mais se é por haver se escondido e sobrevivido à chacina ou se por haver cedido à tentação da carne - à qual já se entregara no passado, conforme diálogo com o garoto que necessita de assistência social.

Em Cannes, em sucessivas entrevistas sobre Elefante Branco, Trapero disse que seu novo filme, na verdade, começou a nascer há muito tempo, desde quando ainda estudava cinema. "Desde então, fui fazendo o que sempre faço. Tomei notas, busquei fotos e recortes de jornais. Sabia que seria um filme grande, com muitos personagens, e não tentei acelerar o processo. Deixei que a história fosse se delineando, tomando um rumo. O importante era isso, que a ideia começasse a existir na minha cabeça. O resto é consequência."

Muitas coisas foram mudando com o tempo e Trapero faz com que padre Julián diga uma frase decisiva - "A violência de ontem não é a mesma de hoje". Os problemas humanos e sociais que o filme espelha seguem existindo. Tomaram outra forma, são talvez diferentes porque hoje há mais gente em condições de extrema pobreza na Argentina, mas a essência não mudou. Ao contar a história desses dois padres - e porque um chamou o outro para compartilhar a missão, coisa que só se define com o tempo, sem diálogos, como uma descoberta interior -, Trapero não deixa de reverenciar uma figura mítica em seu país, o Padre Mugica.

Isso remete ao chamado Movimento dos Padres para o Terceiro Mundo, aos 'curas villeros', como são conhecidos na Argentina. "O Padre Mugica é uma referência inevitável nas lutas e no compromisso desses padres por melhoria social, e não apenas pela salvação da alma. Mugica deu sua vida pelo movimento, mas era essencial que, sem diminuir seu legado, falássemos também do que já virou um grupo de trabalho maior, e que inclui um monte de gente, de voluntários, de ONGs, de assistentes sociais, que levam a luta no cotidiano."

Elefante Branco é forte, impressiona, pode até emocionar, Mas, em Cannes, publicações como Variety e The Hollywood Reporter adotaram o que se pode definir como ponto de vista da indústria. A ficção evolui segundo muitas linhas - o social, o íntimo, o religioso. Nada se resolve. Trapero termina Elefante Branco com o padre Nicolas confrontado com o enigma de sua vida. E agora - para onde ir? "Seria fácil encontrar uma solução, qualquer uma", diz o diretor. "Seria confortável para o público." E ele ironizou com os jornalistas no Festival de Cannes - "Desculpem-nos por fazê-los pensar".

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