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A cidade familiar

Surgem muitas novas fortificações e os campos outrora desertos ao redor agora se povoam de novos habitantes

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 03h01

Constituir família é uma luta. Você precisa criar um lugar seguro, pagar por ele, edificá-lo pedra a pedra. Finalmente surge a “cidadela”, o lugar fortificado. É preciso ter defesas contra o mundo e harmonizar o grupo atrás das muralhas. A estratégia é delicada. A primeira etapa da cidadela é o casal fundador e o esforço do baluarte. 

Quase sempre, a segunda etapa é a mais feliz. O protocasal gerou filhos e as festas internas são boas. Há agregados, porém o núcleo existe ali, unido. Os Natais são, em particular, notáveis e serão memória eterna nas atas da cidadela. 

A terceira etapa é um desafio. Os filhos crescem e surgem namoradas e namorados. Aparecem alguns atritos no convívio forçado com enxertos variados. Há fugas: alguns querem passar o Natal na casa alheia. A mãe pressiona: “Vocês estão namorando há um mês e você vai abandonar sua família de toda a vida?”. Os estranhos penetram no espaço defendido pela porta da frente. Alguns querem até dormir ali. A cidadela sofre ataques internos. Surgem cavalos de Troia. 

A história daquela acrópole original avança. A quarta etapa é quando a segunda geração se reproduz e o casal original passa de fundador a avô e avó. Mais soldados na defesa do núcleo: alegrias para os comandantes. A cidadela volta a ter Natais fortes e com risos de crianças. Algo da segunda etapa ressurge, um vínculo viçoso e prenhe de esperanças. Porém, os experientes sabem que é uma aurora-crepúsculo. Noras e genros não são mais atacantes noturnos querendo aliciar seus filhos: são cidadãos e cidadãs naturalizados com direitos de herança e voto.

O casal fundador envelheceu muito. Há sustos médicos. A autonomia declina e cochichos familiares viram conspirações. A cidadela original é o lugar da memória da segunda geração, a terceira já começa a incorporar estrangeiros. Novo surto de xenofobia. A quinta etapa implica novas negociações. 

Na sexta e penúltima fase da cidadela familiar, o casal fundador partiu. Sempre há a sugestão de que sejam organizadas festas no lugar original que marcou a existência das, agora, estátuas de generais. A segunda geração tornou-se a mais velha e insiste na busca de melodias de Natais passados com bustos de bronze simbólicos na sala. Surgem muitas novas fortificações e os campos outrora desertos ao redor agora se povoam de novos habitantes. 

Há pouco sentido em manter a cidadela original. Desponta a sétima etapa. Cresce a pressão pela venda. Novos espaços demandam capitais que estão empatados ali, naquele museu de memórias. Há quem cultive mais a memória das festas originais e sinta a melancolia do presente. 

O tempo avançou e o poder gerador do passado se esgotou. É hora de demolir a velha cidadela e cada um partir para sua cidade nova. A história passa a se repetir em outros espaços. 

Toda família parece enfrentar esse ciclo de estações com variantes, claro. Dinheiro é um fator decisivo para saber sobre tranquilidade ou angústia no destino da antiga e das novas cidadelas. Difícil ser sábio e equilibrado com tantos sentimentos e memórias, tantos projetos, rendas variáveis e distintos cunhados, noras e genros. A memória da segunda fase tende a ser aumentada e melhorada. Talvez, os dramas das fases finais sejam causados pela memória reinventada de uma infância plena e feliz. Falecidos e imersos em azinhavre, os pais fundadores ficam mais sábios. Envelhecidas as crianças originais, a magia do pretérito é narrada com emoção. 

Administrar o tempo e suas sequelas é o maior desafio de toda construção familiar. Aceitar que tudo passa e que a cada etapa somos diferentes é um imperativo complexo. A âncora dá estabilidade ao navio no porto. Se ela atrasar a viagem, deve ser cortada. Há melancolia nas metamorfoses, claro, porém existe libertação. Ela pode ser entendida como na lição biológica do Rei Leão ao filho: tudo é um círculo/ciclo permanente (música Circle of Life). Na música de Elton John e letra de Tim Rice, tudo deve seguir até que encontremos nosso lugar (‘Till we find our place’). Se Rei Leão for muito pop para sua percepção do mundo, fique com os versos mais antigos do Eclesiastes 1,9: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Entre o apelo teatral da Disney e a sabedoria ligeiramente amarga do Eclesiastes, podemos encerrar com um rumo diferente sobre as memórias da cidadela familiar. Drummond pensou no tempo que passa e escreveu: “O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida. Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora, e o teu aniversário é um nascer a toda hora. E nosso amor, que brotou do tempo, não tem idade, pois só quem ama escutou o apelo da eternidade”. 

É difícil para alguns a compreensão de que a herança não era a cidadela, mas o amor. Aquele era um ninho para aprender a voar e criar novos ninhos. A melancolia é uma forma de preguiça pelo ninho antigo pronto. O objetivo das muralhas não é a pedra em si, todavia conservar o que vai dentro. Para quem vive na memória dos lugares dos Natais passados, vale a lembrança: nem Jesus voltou para visitar a manjedoura. A vida avança e segue porque a missão da cidadela foi realizada. Que cada um leve uma pedra do muro original para construir os seus. O resto, Simba, é o rumor do vento. Boa semana! 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

 

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