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A cidade-Estado

Nos EUA, há muito o que divide ideologicamente o atual governo federal e governos locais

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2017 | 02h00

Ele é líder do G20 mais próximo de um galã de matinê do momento. Justin Trudeau vai ser o primeiro chefe de governo canadense a cruzar a fronteira para encontrar não o presidente dos Estados Unidos, mas governadores estaduais. Sim, é uma afronta diplomática que o suave e tatuado premiê não se esforça para disfarçar. Desde que o presidente que usa um carro de golfe para chegar até outro carro de golfe para jogar golfe caiu fora do Acordo de Paris, estamos vendo alianças incomuns. 

Um exemplo foi o vídeo selfie que Emmanuel Macron e Arnold Schwarzenegger gravaram no Palácio do Eliseu. O ex-governador da Califórnia e o novo presidente da França tiraram sarro de vocês sabem quem depois de uma reunião para discutir mudança climática e sorriram para o smartphone dizendo, “Vamos fazer o planeta grande de novo”, uma variação do slogan da campanha republicana que restringia a grandeza aos Estados Unidos.

Mas o movimento de independência de grandes cidades para resistir a Washington e a retrocessos em política de energia começou antes da posse presidencial, diante das promessas da campanha. No jargão político, as grandes cidades são chamadas de América azul, cor do Partido Democrata, porque concentram a maioria dos eleitores progressistas e têm população etnicamente mais diversa.

Não se trata do renascimento da cidade-Estado aos moldes de Florença ou Veneza há setecentos anos, mas há paralelos. Aumentaram as iniciativas de política externa por prefeitos e alianças entre governos estaduais e prefeituras. Como o aquecimento do clima não respeita fronteiras nacionais, a decisão do presidente do segundo país que mais emporcalha o planeta inspira a viagem sem precedentes de Justin Trudeau para discutir política ambiental direto com os Estados. Doze dos cinquenta Estados e 200 cidades dos EUA já se comprometeram a fazer vigorar as metas do Acordo de Paris.

A constituição americana proíbe governos locais ou estaduais – “entidades subnacionais” – de fazer acordos internacionais. Mas o Acordo de Paris é um conjunto de objetivos sem penalidade legal. Na semana passada, o prefeito de NY, Bill de Blasio, embarcou às pressas para o G20 e não foi para conversar com interlocutores que pode encontrar em Washington. 

Há muito o que divide ideologicamente o atual governo federal e governos locais em áreas como segurança, justiça, educação ou saúde pública. E há muito o que estimula metrópoles a coordenar interesses, seja em comércio ou mercado financeiro. Mas o clima ilustra melhor o impulso de autonomia. Enquanto legisladores demagogos fazem campanha negando o aquecimento do planeta, cidades que elegeram republicanos para governar compartilham com as que elegeram democratas o autointeresse econômico.

Um exemplo eloquente da demagogia como atalho para obsolescência é o controverso oleoduto Keystone, do Canadá ao Golfo do México. Já foram gastos US$ 3 bilhões na construção do oleoduto, alvo de uma temporada de protestos ambientais em vários Estados, ao longo de 2800 km. Mas a operadora do oleoduto não consegue atrair fregueses para tornar o Keystone economicamente viável. Antes de ficar pronto, o monstrengo está sendo atropelado pelo deslocamento da indústria de energia em direção a combustíveis alternativos.

Em Nova York, o bilionário Michael Bloomberg, prefeito durante doze anos, até 2013, foi um dos pioneiros da política externa municipal e tinha o meio ambiente como uma de suas prioridades. Não fumantes e alérgicos como esta colunista devem muito a Bloomberg, o bostoniano durão que tomou a dianteira nas leis antifumo. Steve Bannon, o nacionalista radical e poderoso conselheiro político da Casa Branca, prometeu desmontar o governo federal. A resposta das cidades é fortalecer governos locais.

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