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A cidade e as Serras

No livro, Eça faz crítica ao declínio da identidade lusitana em meio à sedução francesa

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2017 | 02h00

Quando jovem, li toda a obra de Eça de Queiroz. Foi um amor denso, absorvido de forma sistemática e na ordem que encontrei na biblioteca de meu pai. Fiquei escandalizado com O Crime do Padre Amaro. Tive certa repulsa por Luísa e sua empregada no Primo Basílio. Amei a ideia de declínio na Ilustre Casa de Ramires e me diverti muito com A Relíquia. Ria sozinho com as artimanhas do Raposão contra a tia beata. Por algum motivo, um bom texto como Os Maias não me pegou muito. Por fim, conheci o romance A Cidade e as Serras, publicado após a morte do autor.

Trata-se de obra com fundo conservador. O centro da discussão está no tédio urbano e na falta de sentido da abundância de Paris em oposição a uma vida sincera e despojada. A lição do livro é que fazer família no interior com alimentação frugal e sem os salamaleques aristocráticos é o ideal de felicidade. O potencial disruptivo é menor do que o do Padre Amaro ou da adúltera prima Luísa. 

Feitas essas observações, preciso reconhecer, é meu livro preferido da pena de Eça. Jacinto, a personagem central, é o príncipe de grã-ventura. Vive rico em mansão parisiense. Seu amigo Zé Fernandes o descreve: “Meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com 109 contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival”. 

Jacinto segue uma vida cheia de atividades que não o satisfazem. Compra milhares de livros, adquire todos os aparelhos modernos, adorna a casa com encanamento e disposição de água quente (que quase o mata afogado) e vive dando passeios sem sentido. É presidente de empresas que não o absorvem e a tudo considera uma maçada. Seu funcionário mais tradicional (o Grilo) diz que ele sofre de um mal: a fartura. 

O excesso matava o vigor. Para beber, havia águas tão variadas que ele é incapaz de decidir entre as carbonatadas, acidificadas ou borbulhantes. Há tantas escovas de cabelo e com cerdas tão sortidas que ele vive perdido em meio à parafernália parisiense de toucador. Um dia, contemplando Paris, Jacinto e Zé Fernandes discutem a cidade como esse lugar de excesso, abulia e decadência. Também constatam que as modas vêm e vão no campo das ideias. 

O que seria a estonteante Paris? “Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam os vergéis e lezírias de 30 províncias; e de bancos em que retine o ouro universal; e de fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas (...) de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ônibus, tramas, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões duma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo - o homem do século 19 pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!”

Por acidente da vida, Jacinto precisa voltar a Portugal para inaugurar um novo jazigo de família. Para isso, despacha toda a parafernália urbana: aparelhos, livros, móveis et caterva. Chega a sua mansão lusitana nas serras sem que seus objetos tenham assomado. A casa estava em ruínas e ele se vê obrigado a ficar com pouco. A comida austera é mais aproveitada do que os excessos gastronômicos da Cidade Luz. Lentamente, submetido a um regime distinto, o príncipe da grã-ventura vai descobrindo a alegria do pouco e o prazer da simplicidade. Ao perceber que alguns dos seus inquilinos rurais vivem em pobreza, passa a reformar suas casas e se torna um benfeitor social. Finalmente, encontra uma moça simples, distinta das suas duquesas e baronesas parisienses, casa-se e passa a povoar o mundo de pequenos jacintos, sem nunca ter saudades ou desejos de restaurar a glória do endereço da Champs-Élysées, 202. 

Em uma primeira leitura, trata-se de um Eça que não mais critica a sociedade portuguesa e suas hipocrisias provincianas e católicas. Porém, também é a crítica ao declínio da identidade lusitana em meio à sedução francesa e um apelo ao melhor da modernidade ligado às raízes da serra de Tormes. Sejam civilizados, mas sejam portugueses, parece ser parte do apelo do escritor. Eça experimentou as ambiguidades do texto. Várias vezes repetiu ao longo da vida: “Sou um pobre homem da Póvoa de Varzim”.

 

A resposta de Eça, ao final da vida, foi rejeitar a sede da modernidade urbana: Paris. A minha ainda é a vida do primeiro Jacinto, sem sua fortuna. Lugares pequenos e bucólicos, para um descanso de 48, 72 horas no máximo, são bem-vindos. Depois disso, a aldeia e a vida pequena começam a me sufocar. O mundo paulistano e seu corolário de caos, cultura, riqueza humana, trânsito caótico, violência, oportunidades e desafios são o sangue que ainda corre pelas minhas veias. Preciso disso. Descobrirei a alegria das serras um dia? Entendo todos os detratores da vida metropolitana, porém associo vida plena ao mundo urbano. Boa semana para todos! 

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