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A cidade e a solidão

Sucesso de público e crítica no Festival de Gramado - e, antes, no de Berlim -, Medianeras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual, de Gustavo Taretto, é um dos dois filmes argentinos que estrearam sexta-feira em São Paulo. O outro é Um Conto Chinês, de Sebastián Borenztein, com Ricardo Darín. São diferentes em tudo, mas, na verdade, não são tão diferentes assim. Ambos tratam, em diferentes contextos, de personagens que precisam vencer seu isolamento. Darín o faz acolhendo em sua casa esse chinês perdido em Buenos Aires.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

O casal de Medianeras, formado por Javier Drolas e Pilar López de Ayala, a Angélica de Manoel de Oliveira - e a Elena de Lope, de Andrucha Waddington -, vive cada um no seu canto, também em Buenos Aires. Cruzam-se sem se ver. Um Conto Chinês busca dar sentido ao absurdo da existência, Medianeras é sobre o papel do acaso na vida das pessoas. Você pode preferir um ou outro, mas ambos provam, de novo, a força e diversidade do cinema da Argentina.

Em Gramado, o ator Javier Drolas disse que Medianeras era, na origem, um curta. Como foi a passagem para o longa?

Desde que escrevi a história, sabia que havia um longa dentro dela. O que não sabia é que essa história podia despertar tanta identificação e entusiasmo nas pessoas. Podia ter ficado somente com o espírito do curta, mas havia na estrutura algo que me interessava e impulsionava a seguir trabalhando. Essa estrutura foi que me permitiu fazer conviver, de maneira harmônica, uma comédia romântica, uma reflexão visual sobre Buenos Aires e uma espécie de ensaio social ligeiro sobre a vida moderna e as neuroses urbanas. A estrutura é o que diferencia o filme e o torna original.

A ideia de integrar a arquitetura ao relato é muito criativa. Isso vem de onde?

Nos cinco curtas que fiz, há uma espécie de protagonismo do espaço e da cidade. Foi o que levou o Festival de Curtas de São Paulo a armar um programa em minha homenagem. Comecei garoto a retratar a arquitetura e a cidade por meio de fotos. De tanto observá-la, comecei a refletir sobre ela. Medianeras tenta de alguma forma explicar a relação da cidade com as pessoas e a das pessoas com a cidade. Como nos parecemos com as cidades que escolhemos e como elas se parecem conosco. Uma simbiose perfeita, para o bem e para o mal.

Muitos críticos, em Gramado e Berlim, comparam seu trabalho com o de Woody Allen. Como vê essa comparação?

De um lado me deixa cheio de orgulho. De outro, me dá vergonha, porque me parece falta de respeito com um autor que é incomparável. Admiro o cinema de Woody Allen porque tem o melhor da comédia, o humor inteligente. São filmes simples, nada pretensiosos, e abordam temas que são profundos e emotivos. Que alguém possa ver um pouco disso em Medianeras, é coisa que me deixa exultante.

E quais são os seus Woody Allen favoritos?

Manhattan, e foi um luxo ter sido autorizado a usar um fragmento na montagem de Medianeras, Annie Hall, Hannah e Suas Irmãs, Todos Dizem Eu Te Amo, Zelig, Crimes e Pecados.

Me encantam as cenas em que os protagonistas se cruzam na rua sem se ver. Há uma frase do diálogo que fala da angústia de se buscar alguma coisa sem saber o que é. É isso?

Com certeza. Creio que a angústia, o mistério e também o encanto de se viver nas grandes cidades é justamente o fato de estarmos rodeados de desconhecidos. Duas pessoas que merecem se conhecer podem nunca se cruzar na vida, o que me parece triste, mas realista.

Você fez alguma pesquisa sobre o comportamento fóbico dos personagens? Algum componente autobiográfico?

O filme é produto da observação e da imaginação. Seu humor me permitiu abordar os assuntos sem medo. É um pouco como vejo as pessoas. Com muitas neuroses urbanas, muitos mecanismos de defesa. Tenho a impressão de que todo mundo hoje se refugia em casa, no apartamento, aonde quer que seja. A tecnologia nos vende a promessa de conexão (virtual, claro) e o mundo delivery faz o resto. As coisas mais importantes hoje são ditas por chat, e-mail ou mensagem de texto. É mais fácil convidar uma garota para sair por MSN e para ela também é mais fácil dizer que não pelo mesmo MSN.

Os personagens se cruzam sem se encontrar. Como foram filmadas as cenas com os atores? Separadamente?

Um dos desafios do filme, talvez o maior, foi fazer com que eles formassem um casal, mesmo sem compartilhar as cenas. Foi por isso que armei a filmagem de um jeito que eles não se conheceram antes que os próprios personagens. Tinha um roteiro detalhado, mas sempre houve espaço para improvisação. Javier (Drolas) e Pilar (López de Ayala) participaram muito da criação dos personagens. A ideia era retratar esse aspecto fundamental da vida moderna. A gente sabe o que deve fazer quando sai de casa, mas é preciso estar aberto, porque a cidade nos surpreende o tempo todo.

O público brasileiro de classe média adora o cinema argentino porque é bem escrito, interpretado e realizado. Os personagens parecem gente como a gente. O que você acha disso e como vê o cinema brasileiro?

Sei que o filme foi bem recebido em Gramado e espero que também seja na estreia em São Paulo. Medianeras tem um forte protagonismo de Buenos Aires, mas creio que seus temas são universais. Também penso que Buenos Aires e São Paulo têm muita coisa em comum, e não apenas o gigantismo. Retratei muitas vezes com minha câmera a inquietante Av. Paulista. Tenho de confessar que tenho mais admiração e afinidade pela música brasileira, especialmente a bossa nova. A música do Brasil chega muito mais que o cinema a Buenos Aires. Isso para não falar de futebol, claro.

Medianeras estreia com outro filme argentino, Um Conto Chinês. Ricardo Darín é um senhor ator de cinema. Concorda?

Darín é a cara do cinema argentino. Um ator versátil, talentoso, emotivo e carismático. E mostra isso, mais um vez, no Conto Chinês.

Já falamos de Woody Allen, mas Medianeras também tem algo do espírito do francês Eric Rohmer. Sim ou não?

Rohmer é outra fraqueza minha. Por sua simplicidade, austeridade e honestidade. Creio que Allen e Rohmer, cada um em seu estilo, são mestres que refletem as contradições da cabeça e do coração, traduzidas genialmente em encontros e desencontros.

Como anda a carreira de Medianeras?

Desde Berlim, Medianeras foi comprado para 30 países. Estreou somente na França, onde está em cartaz há três meses, e agora no Brasil. Acabo de chegar de três projeções no Lincoln Center, em Nova York. Foram inesquecíveis. Na Argentina, estreia em outubro.

MEDIANERAS: BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL

Direção: Gustavo Taretto.

Gênero: Drama (Argentina/2011, 95 minutos). Censura: 12 anos.

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