A cidade como suporte da arte

Em 2004, quando o prédio do Instituto do Câncer, na Avenida Dr. Arnaldo de São Paulo, era apenas um grande esqueleto de concreto, o artista Eduardo Srur colocou 35 barracas de camping coloridas em 24 andares da fachada do edifício, todas elas iluminadas, o que criava uma bela e leve imagem na metrópole à noite. Acampamento dos Anjos, naquela época, era uma obra de ensejo poético, até "espiritual", como diz Srur, mas o pintor já promoveu outras tantas intervenções urbanas que chamaram a atenção pelo caráter crítico e provocativo, como A Arte Salva (2011), em que depositou 360 boias salva-vidas no Congresso Nacional em Brasília.

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 02h11

"Sempre tive interesse em construir trabalhos pensando no espectador, levar a arte para além do circuito artístico", afirma Eduardo Srur, que lança hoje, no Museu da Imagem e do Som (MIS), um livro original e oportuno, Manual de Intervenção Urbana (Bei Editora), obra sobre 16 anos de trajetória do artista. O manual, que documenta, analisa e incentiva a ação, tem textos do próprio Srur, editados com a ajuda de Marcelo Rezende.

Em 1996, Eduardo Srur pintava "composições realistas", como lembra, em que retratava "veículos velhos e abandonados nas paisagens naturais". A pesquisa nasceu de viagem que o artista realizou pela costa do Pacífico e pela Cordilheira dos Andes. Mais adiante, no início dos anos 2000, contêineres empilhados transformaram-se nos temas de suas pinturas, revelando uma carga de "mistério".

Desse modo, o pintor teve a necessidade de ir para o espaço público, transformando o suporte de sua obra das telas para a escala urbana. "A cidade é colocada como plataforma de trabalho, mas nunca abandonando o olhar diferente do artista", define Srur. De certa forma, ele até ficou um pouco "rebelde" com as intervenções urbanas efêmeras que começou a realizar, encaradas como ações de "guerrilha" - mas este ano, ele conta, voltou a pintar telas da série Fardo já que "o artista pode ser mais de um ator ao mesmo tempo no sistema".

A raiz pictórica, balanceada com olhar crítico e até com humor, sempre fizeram dos trabalhos de Eduardo Srur, de 38 anos, obras chamativas que nunca deixaram de lado o "encantamento". Para ele, sua produção é política em um país em que poucos criadores são diretamente políticos.

A poluição, por exemplo, já foi tema de intervenções como Caiaques (2006), um acúmulo de caiaques tripulados por manequins nas águas poluídas do Rio Pinheiros, ou de PETS (2008), em que o artista depositou 20 esculturas infláveis gigantes em forma de garrafas PET em uma extensão do Rio Tietê.

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