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A china, sob dois olhares geniais

Documentários de Antonioni e Jia Zhang Ke dialogam e se completam

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2010 | 00h00

Quem gosta de cinema sabe que pode ser bem interessante colocar dois filmes para dialogar. Ainda mais quando seus autores são um mestre do passado e um dos maiores diretores do presente. É o caso dos documentários China, rodado pelo italiano Michelangelo Antonioni no início dos anos 70, e do contemporâneo Memórias de Xangai - I Wish I Knew, do chinês Jia Zhang Ke.

Ver um filme em relação ao outro permite não apenas observar um contraste de estilos, mas a posição do olhar de cada um dos diretores. Em China (1972), temos um documentário basicamente observacional, com narração em off, um olhar estrangeiro que se fascina por um país na época bastante fechado aos ocidentais. Em Memórias de Xangai (2010), além da observação interna, sempre traduzida em imagens rigorosas e inspiradas, marca registrada do projeto estético de Zhang Ke, temos entrevistas com vários personagens. Mescla, portanto, a câmera-testemunha a depoimentos, voltados à reconstrução do passado.

As condições de realização de China são peculiares. Durante o período forte da Revolução Cultural, Antonioni foi convidado para fazer o filme. Em países comunistas, visitas são dirigidas. Trilham-se caminhos pré-aprovados. Com Antonioni não foi diferente. Ele, e sua equipe, visitaram Pequim, Nanquim, Suzhou, Xangai e a província de Henan. O país deveria ser apresentado sob ótica favorável. A narração de China torna explícito esse caráter restritivo da visita. Apesar da limitação, o panorama cultural revela-se estupendo.

No entanto, sempre existe algo que escapa a qualquer planejamento, por detalhado que seja. A equipe de Antonioni vê uma aglomeração e se aproxima, sob protesto dos guias designados pelo governo. Era uma espécie de feira, uma sobrevivência "burguesa" em meio à economia controlada. Atento às contradições, o cineasta filma esse feliz acaso que lhe permite quebrar a ordem pré-estabelecida do trabalho. Não se faz parte da tradição neorrealista por nada.

Essas imagens de China migram para Memórias de Xangai quase 40 anos depois. Zhang Ke usa as imagens e entrevista o cicerone de Antonioni durante as filmagens. O depoimento é engraçado por um lado, trágico por outro. Dá bem ideia do que foi a Revolução Cultural sob a chamada Gangue dos Quatro. "Eu dizia para o cineasta que ele não deveria filmar aquilo, que tínhamos tantas coisas bonitas e ele insistia em gravar o feio", diz. Antonioni, continua o guia, insistiu. "Ameacei interromper a filmagem, mas ele não me atendeu", diz o guia. Resultado: quando o filme ficou pronto, as autoridades o consideraram contrarrevolucionário. O documentário jamais foi exibido na China e a culpa recaiu sobre o pobre cicerone. "Fui preso como traidor, sofri uma reabilitação e tive de fazer uma autocrítica pública", conta em Memórias de Xangai.

A mera possibilidade de Jia Zhang Ke registrar essas palavras com as imagens proibidas de Antonioni mostra como a História caminhou. Vistos em separado, China e Memórias de Xangai são já estupendos; assistidos em bloco, tornam-se fascinantes e obrigatórios.

CHINA

CCSP - Hoje, 18h

MIS - Quinta, 18h20

MEMÓRIAS DE XANGAI

Reserva Cultural 1 - Hoje, 16h30

Especial. Programação completa da 34ª Mostra em

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