A China e o compromisso com o humano

Há uma cena do novo filme de Jia Zhang-ke, I Wish I Knew, Eu Gostaria de Ter Sabido - em Um Certain Regard -, em que aparecem imagens de um filme de propaganda da época da Revolução Cultural. O narrador fala do esforço de uma trabalhadora da indústria têxtil usando adjetivos tão exagerados que tudo aquilo hoje remete a uma China que desapareceu com o maoismo. O filme é, de novo, sobre as transformações ocorridas no país. E é muito bom. Zhang-ke continua crítico em relação à China do século 21, mas isso não quer dizer que ele seja contra o movimento da História (com maiúscula). Seu compromisso é com o humano e aquela fala, superlativa como é, contrasta com os depoimentos serenos dos 18 personagens que o diretor escolheu para dar seu testemunho.

CANNES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Mas a fala também ajuda a expor uma das deficiências de La Princesa de Montpensier. A seleção francesa não está nada boa em 2010. Depois de um filme insatisfatório de Mathieu Amalric, Tournée, a França mostrou outro filme em competição que deixa a desejar, assinado por um de seus cineastas de prestígio, Bertrand Tavernier. A Princesa de Montpensier baseia-se no livro de Madame de La Fayette, autora que introduziu o realismo psicológico na literatura francesa com A Princesa de Clèves. Só para lembrar, La Princesse de Clèves foi adaptado por Jean Cocteau por volta de 1960 e, recentemente, inspirou La Belle Junie, de Christophe Honoré.

Durante as guerras religiosas na França do século 16, a princesa de Montpensier é disputada por vários homens. Para o marido, ela é uma propriedade; para o primo, o duque de Guise, é uma conquista; para o irmão do rei, o duque de Anjou, um objeto impossível de desejo. Só quem a ama de verdade é o ex-mentor do marido, que sacrifica o desejo ao espírito e lhe devota um sentimento puro. A ideia é interessante, os atores e atrizes são todos belos (Melanie Thierry, Gaspard Uliel, Grégoire Leprince-Riguet, etc.), mas não dá para aguentar a linguagem empolada de frases feitas com que o cineasta denuncia os massacres religiosos nem o academicismo com que conta sua história. É o oposto do diálogo vivo que faz a força de Another Year, o melhor filme de Mike Leigh desde Segredos e Mentiras (leia entrevista). / L.C.M.

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