A cerâmica como arte, por Kimi Nii

Livro analisa e apresenta a ampla produção da ceramista, realizada desde o fim da década de 1970

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2012 | 03h09

Se no Brasil a cerâmica é vista apenas como a criação de utilitários, a obra de Kimi Nii nos revela que essa arte milenar pode guardar em si muito mais, ser a técnica de base para peças de extrema sofisticação, escultóricas. "Fundamentalmente, Kimi une a tradição oriental da cerâmica e o melhor do construtivismo brasileiro", afirma o crítico e repórter especial do Caderno 2 Antonio Gonçalves Filho, autor do livro Kimi Nii, que será lançado hoje, a partir das 19 horas, no Instituto Tomie Ohtake.

A ceramista não faz apenas a ponte entre a arte criada com a argila e a escultura de mestres como Amilcar de Castro e Sergio Camargo: sem medo de correr riscos, Kimi Nii ainda se lança, em suas obras, a dialogar com vertentes diversas como o cubismo europeu, a pintura metafísica de Giorgio Morandi, as peças de Anish Kapoor e de Brancusi, enumera o crítico. Por outro lado, a ceramista também se dedica à "geometria orgânica" ao conceber trabalhos que remetem a formas de flores ou do capim.

O livro é a primeira edição sobre a produção da ceramista. Tem a qualidade de possibilitar a apreensão abrangente e adensada das obras de Kimi Nii, realizadas desde a década de 1970. Nascida em Hiroshima, no Japão, em 1947 - dois anos após a bomba atômica -, ela se mudou para o Brasil quando menina, em 1957. Formada em desenho industrial pela Faap, Kimi criou suas primeiras obras por meio da arte da cerâmica entre 1977, quando fez aulas com Massayuki Sato, e 1978 ao montar uma pequena oficina com a prima Yae Takeda. Não parou e hoje é considerada uma das melhores do País.

O crítico Antonio Gonçalves Filho, que acompanha a trajetória da ceramista há cerca de 30 anos, afirma que Kimi Nii nunca quis fazer "arte decorativa". "Seu diálogo com a obra de outros artistas não é imitativo", define o autor. Para ele, é possível ver toda uma narrativa da história da arte do século 20 por meio das leituras que a criadora faz de mestres referenciais, diversos, em sua obra. "Seu olhar é educado; tudo o que produz é dedicado e delicado", completa o autor.

Diálogos. Existe a conexão - por vezes explícita - com peças de outros criadores. A própria Kimi Nii intitulou Vasos Morandi as peças de 1981 em que transpõe para o campo do tridimensional as formas das pinturas do italiano. Mas é possível traçar uma relação direta entre suas obras de 1988 da série Encaixe com as esculturas de plano cortado do mineiro Amilcar de Castro - em que da ponta de um quadrado se faz um triângulo. "Nelas, sempre há um apêndice que sai esmaltado do corpo da matéria opaca, como se o elemento móvel emergente fosse o responsável pela interação entre as partes e o espaço, conciliando a estrutura fixa do conjunto com a mobilidade dessa peça solta", escreve Gonçalves Filho em seu texto para o livro.

O crítico ainda chama a atenção para o diálogo que se estabelece entre o trabalho Zeppelin, de 2000, uma "peça que se autoenvolve", com as criações em mármore negro belga do escultor Sergio Camargo. "Kimi já as havia esboçado nos anos 80", analisa o autor, completando que foi essa a década de experimentação para a ceramista. Em 1981, na peça Soco, ela incorporou, por exemplo, o soco dado por seu filho, então com 2 anos, em trabalhos que estavam em processo de secagem. Curiosa também é sua operação de realizar finos cortes, principalmente, nas obras esféricas que Kimi cria há tempos, "ousadia de gestos expressivos como o de Lucio Fontana rasgando uma tela (e ela faz isso na escultura)".

A complexidade e sofisticação da produção de Kimi Nii não está apenas em promover leituras/diálogos com a arte contemporânea - no caso do construtivismo brasileiro, ela foi uma pioneira, diz Gonçalves Filho -, mas criar peças de argila nas quais lida com o "imponderável" - sua técnica, enfim, deve ser precisa. Cortes finos, sobreposições, fragmentações em planos e esferas de barro ganham ainda, por vezes, a cor. Não como adorno, mas parte ativa das composições. Kimi já realizou exposições em galerias e instituições e criou painéis para espaços e edifícios, mostrando que a cerâmica é arte.

Mesmo sendo esculturas as obras da ceramista, Kimi Nii não abandonou a vertente utilitária em sua produção. Beleza e funcionalidade são, enfim, a marca de garrafas, castiçais, caixinhas, pratos e tigelas também criadas pela artista.

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