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A celebração que virou homenagem póstuma

A Mostra Tiradentes em SP exibe amanhã o deslumbrante 'Paixão e Virtude', de Ricardo Miranda, que morreu ontem

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h11

Era para ser uma celebração - vai virar uma homenagem póstuma. A Mostra Tiradentes em São Paulo havia programado a exibição amanhã, no Cinesesc, de Paixão e Virtude, de Ricardo Miranda, seguida de debate com o diretor. Ricardo deveria ter chegado na tarde de ontem à cidade. De madrugada, teve um enfarte e morreu. Embora não fosse muito conhecido pelo grande público, era autor importante. Tinha 63 anos.

Em dezembro de 1837, Gustave Flaubert escreveu Passion et Vertu - Un Conte Philosophique. Quase 180 anos depois, o conto filosófico do escritor francês ganhou versão para o cinema assinada por Ricardo. Natural de Niterói, ele desenvolveu extensa atividade como montador de filmes de Paulo César Saraceni, Glauber Rocha e muitos outros. Só cinema de autor, e dos mais exigentes. Em janeiro, na Mostra de Tiradentes, Ricardo ainda teve oportunidade de exibir - e discutir - sua transcriação de Flaubert.

Mais do que uma simples adaptação do conto, o diretor e roteirista propôs um jogo de asperezas e estranhezas para falar de sexo, desejo - e para decifrar a persona do narrador. Mazza, que vive uma relação histérica com o marido banqueiro - não consegue ter prazer na cama com ele -, liga-se a um cientista. Tinha de ser um químico, para que a união entre eles fosse tão explosiva. Mas Mazza desestabiliza o cara com sua demanda crescente. Como se narra uma história dessas? Com quem deve estar o ponto de vista?

Ricardo Miranda fez um filme belíssimo - e ousado, em muitos níveis. Paixão e Virtude não integrou a mostra competitiva Aurora. Passou numa das seções paralelas de Tiradentes. Um pouco como Julio Bressane, ele era um erudito capaz de seduzir as plateias com observações perspicazes. O debate se fará agora em sua ausência. Caberá a outros - críticos, colegas, colaboradores - decifrarem o mistério de Ricardo Miranda. Era daqueles autores que permaneciam um segredo de poucos. Um biscoito fino. Em Djalioh, seu longa precedente, já delineara seu projeto. Não era um adaptador no sentido literal. E, quando reverenciava o texto, que está quase todo (todo?) na tela, era com um objetivo preciso - o cinema de Ricardo Miranda não visualiza, não busca correspondências visuais. Ele é a encenação do texto.

Talvez Jean-Marie Straub tenha feito a mesma coisa, especialmente em sua obra dirigida pela mulher (que morreu) - Danièle Huillet. A par do texto, Paixão e Virtude encena outro diálogo - com as artes visuais. Pode ser um exercício interessante identificar as referências de Ricardo a quadros famosos, mas você não precisa delas para entrar no - e usufruir o - clima do filme. O derradeiro deleite - para além das cenas intensas de sexo, que Ricardo filmava com o despudor de sua geração libertária - é a entrada em cena de Helena Ignez. No reduzido tempo que fica em cena, ela encarna o próprio narrador, Flaubert, e diz o texto do escritor de forma luminosa. Deslumbrante.

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