A celebração da utopia

Moacyr Scliar festeja a busca por um sentido da vida em Eu Vos Abraço, Milhões

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

A maioria dos escritores respira, depois escreve. Moacyr Scliar inspira oxigênio e expira, ao que parece, um exemplar já pronto. Nesta semana, por exemplo, chega às livrarias Eu Vos Abraço, Milhões, o 80º livro de sua carreira. Aos 73 anos e com uma obra que se distribui entre romances, contos, infanto-juvenis e de ensaios, o autor gaúcho se firma como um dos principais nomes da literatura nacional. E, curiosamente, Eu Vos Abraço, Milhões poderia ocupar uma posição menor no ranking das obras, pois há anos que Scliar cuida de sua confecção.

Trata-se de um romance de formação que acompanha a descoberta do mundo por Valdo, rapaz gaúcho filho de um humilde capataz de estância que se apaixona pelo comunismo e parte para o Rio de Janeiro em busca de um sentido para sua vida. Lá, porém, descobre aos poucos a inviabilidade das utopias e, ao invés de lutar pela classe oprimida, torna-se um assalariado, trabalhando justamente na construção de um imenso ícone da alienação: o Cristo Redentor.

"Meu ponto de partida foi justamente o Cristo", conta Scliar, lembrando-se do famoso monumento no qual o personagem Valdo trabalha na construção. "Li a história do engenheiro de origem judaica (o francês Paul Landowski) que ajudou na criação do Cristo e que seria protagonista de um romance. Mas, aos poucos, ele foi encolhendo até surgir outro personagem que acabou se impondo."

Scliar empolgou-se também com o momento histórico - Valdo é adolescente durante os anos 1930, época em que o mundo tenta se recuperar da crise econômica provocada pela queda da bolsa de Nova York em 1929 e, no Brasil, Getúlio Vargas toma o poder com a Revolução de 30. "É o auge da presença gaúcha na história do Brasil - a Coluna Prestes, por exemplo, teve uma origem indireta na cidade de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul."

Pesquisa. Para utilizar tantos dados, Scliar fez uma ampla pesquisa, recorrendo também a recordações familiares. Curiosamente, não se trata de um romance histórico, apesar de tantas referências. "Gosto de contar, na verdade, momentos pitorescos como a famosa cena dos soldados de Getúlio amarrando os cavalos no Obelisco da avenida Rio Branco, no Rio", conta. "Pode até ter uma interpretação psicanalítica pois o Obelisco lembra um símbolo fálico e o machismo é uma característica gaúcha."

O livro, na verdade, é um grande flashback, com Valdo, já velho, contando sua trajetória para um neto que mora nos Estados Unidos. Assim, ao mesmo tempo em que busca aproximação com um parente ainda pouco íntimo, ele também reflete sobre os próprios passos. E, acima de tudo, não perde jamais a sua esperança.

O título surgiu de um verso do poeta alemão Friedrich Schiller, do poema Ode à Alegria, que, por sua vez, inspirou a Nona Sinfonia de Beethoven. "É a história do sonho comunista de transformação do mundo, que incendiou a imaginação juvenil no início do século", observa o autor. "Assim, se hoje vivemos sob uma espécie de pesadelo, marcado pelo ceticismo geral, é bom lembrar que houve um tempo em que algumas pessoas tinham um desejo genuíno de transformação."

Trata-se, portanto, de uma celebração nostálgica de um sonho utópico. "Participei de movimentos semelhantes e há anos o romance estava incubado, mas eu não visualizava seu nascimento até que agora veio com força total."

TRECHO

"Contei a Geninho que tinha queimado Dom Casmurro. Pensei que...

...ele me felicitaria pela atitude corajosa ("Muito bem, camarada, primeiro queimamos obras reacionárias, depois os palácios burgueses"), e isso seria um apoio do qual eu estava precisando. Mas não. Olhou-me por um momento, suspirou e não disse nada. O que, para mim, resultou em amarga e ofendida surpresa."

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