A cativante história de um beijo infantil

Eu e Meu Guarda-Chuva tem tudo, ação, efeitos, humor e romance

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

Tio Maneco, Castelo Rá-Tim-Bum, Mistério da Feiurinha - há uma produção infantil que busca fugir à banalidade no cinema brasileiro. A essa série de títulos soma-se agora Eu e Meu Guarda-Chuva. O longa de Toni Vanzolini estreou na sexta-feira passada. É uma ótima alternativa para hoje - Dia da Criança -, embora sua magia não se esgote nos baixinhos. Eu e Meu Guarda-Chuva tem condições de fazer o crossover etário, atingindo desde espectadores mirins até os adultos. Cada um vai projetar sua expectativa ou vivência.

"Nas pré-estreias, pude constar uma coisa interessante. As crianças bem pequenas curtem a aventura; os pré-adolescentes se interessam mais pelo romance; e os adultos elaboram a dor da perda, que é um tema importante. O filme atende a toda família, e isso me deixa feliz", avalia o diretor.

Filho de compositor (Paulo Vanzolini), Toni sempre se interessou pela música, tendo assinado clipes de importantes nomes da MPB. Antes de virar filme, por suas mãos (e olhos), Guarda-Chuva percorreu uma trajetória que começou em 1982. "Naquele ano, fiz, com meu parceiro, Ciro Pessoa, um CD de músicas malucas, com temas lisérgicos", conta o compositor Branco Mello, dos Titãs. "Brincávamos de criar personagens. Uma das faixas se chamava Eu e Meu Guarda-Chuva e fez tanto sucesso que virou peça (com Andréa Beltrão) e livro (com Ciro Pessoa e Hugo Possolo)", ele acrescenta. Quando embarcou na adaptação do Guarda-Chuva, Vanzolini partiu do livro, mas é o primeiro a dizer que voltava às canções, sempre que o roteiro enguiçava. No início, a ideia era usá-las como no disco, mas até isso mudou. "O Branco deu nova sonoridade, mais sinfônica, às canções."

A escola é o novo espaço da aventura - você já deve ter visto a chamada espalhada por aí, em outdoors e anúncios em jornais. A trama de Eu e Meu Guarda-Chuva trata, basicamente, de três amigos, Eugênio, Frida e Cebola. Eugênio, o protagonista, sofre a dor da perda do avô e não tem coragem de declarar seu amor por Frida. Quando o filme começa, um novo ano letivo está se iniciando. A garotada muda de escola e vai visitar o local, assombrado pelo fantasma do barão, que aprisiona Frida. Com a ajuda do Guarda-Chuva - e alguma vacilação de Cebola -, Eugênio fará de tudo para resgatar a amada. Durante todo o tempo, o espectador fica se fazendo a pergunta - afinal, ele vai, ou não, beijar a garota?

Guarda-Chuva estreou com 80 cópias, pouco mais de 10% das 600 com que Tropa de Elite 2 tomou de assalto os cinemas de todo o Brasil, no mesmo dia. Tropa 2 nasceu com a vocação de ser blockbuster. O lançamento de Guarda-Chuva foi menor, mas o encanto do filme merece ser descoberto pelo público. Não é sempre que se vê um filme brasileiro com esse clima mágico. Logo no começo, para situar o espectador, a câmera passa pelo aquário em que está o peixinho dourado. Daqui a pouco, o peixe está saindo da água e nadando no espaço. "É a senha que nos dá liberdade para sonhar", explica o diretor. "Antes disso, quando Eugênio duela com o Sombra, usando o Guarda-Chuva, esse clima onírico já foi estabelecido", ele acrescenta.

Guarda-Chuva? E por que não simplesmente guarda-chuva? Porque ele é um personagem e, como tal, ganha nome próprio. O espectador talvez se interesse de saber que a escolha do guarda-chuva, perdão, do personagem, foi tão criteriosa quanto a do garoto que faz Eugênio. "Testamos vários tipos de guarda-chuvas, até achar o melhor modelo. Durante a filmagem, usamos em torno de 70 unidades. Havia guarda-chuva para efeitos, para segurar peso, um para cada cena e função", diz o diretor. A escolha do elenco foi mais difícil ainda.

"Um ano na vida de garotos em fase de crescimento pode mudar tudo, e o filme demorou mais do que isso", conta Toni Vanzolini. Ele escolheu Lucas Cotrim (Eugênio), Rafaela Victor (Frida) e Victor Froiman (Cebola) porque funcionavam entre si. "Tinham química como duplas e trio." Lucas foi chamado para fazer uma novela. "Cheguei a pensar em fazer o filme com ele mesmo durante a novela. Todo mundo achou loucura. Ele está em praticamente todas as cenas. Felizmente, as datas não coincidiram." Lucas Cotrim possui uma qualidade viril, você acredita no amor dele, na sua necessidade de proteger Frida e torce pelo beijo. E Daniel Dantas, como o Barão? "Desde o começo, pensava nele. Daniel fez a peça no Rio, mas me surpreendeu. O filme deve muito a todo o elenco", diz o diretor (e está certo).

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