A casa, ou onde nascem as famílias e os sonhos

Em certo ponto de Construção, a diretora, e narradora, Carolina Sá, entoa: "O que há de maravilhoso numa casa não é que ela nos abrigue, nos conforte nem que tenha paredes, é que depõe em nós, lentamente, tantas provisões de doçura, que forma no fundo do nosso coração esta nascente, obscura, de onde correm, como água da fonte, os sonhos". É de casas, memórias, sonhos, pai e pátria que seu filme fala. E sobre o qual ela falou ao Estado:

Entrevista com

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h22

Você, ao escolher o nome Construção, fala tanto da construção de uma família quanto de uma casa e do ofício de seu pai, arquiteto. A casa é o território dos sonhos. Há na narrativa a construção da figura do pai e da pátria, do lugar de onde se vem.

E você realiza o sonho de dar uma pátria à sua filha ao levá-la para visitar o pai em Cuba. Talvez dar a ela a casa que você não teve, o sentimento de pertencimento, e da figura paterna.

É. Tem isso, sim. A vontade de se fazer um filme muitas vezes, no fundo, surge de algo que ficou mal resolvido e que se quer buscar no processo. É como se o filme fosse uma maneira de se encontrar reflexões sobre coisas que nos tocaram na vida.

Família sempre tocou você?

Sim. Tive uma família esfacelada no começo. Depois, minha mãe casou-se de novo, mas aí virou uma outra coisa. O fato é que minha primeira família, o núcleo 'pai, mãe, filhos', desmoronou quando eu era muito pequena. E fiquei sem essa referência. Mas muitos passaram por esse processo. Por isso, acho que muitas pessoas vão se identificar com este filme.

Ironicamente seu pai é arquiteto. Devia ser frustrante para ele ver, tanto metaforicamente quanto na prática, que não conseguia manter em pé sua própria casa.

Muito! Ele era um idealista. Gostava de escrever músicas, de filmar... Tinha o sonho de construir casas, cidades lúdicas. "A sala de estar devia ser um espaço em que as pessoas se encontram", diz ele em seu livro A Casa como Convém. E, ao mesmo tempo, ele, que teve uma história familiar difícil, que perdeu o pai, pessoalmente não conseguiu alcançar esse ideal. A gente sempre tem a ânsia de ir atrás do que não se teve. E eu, como você disse, quis de certa forma dar para minha filha um pouco do que não tive.

Por outro lado, ele adorava filmar. E isso você tem dele, não?

Pois é! Conheci meu pai fazendo este filme, lendo as cartas que ele mandava para minha mãe, vendo as imagens que ele filmou. No processo, percebi que fiz com a minha filha o que ele fez comigo. É como se a gente precisasse filmar momentos felizes e de família para saber que existiram.

E a relação dela com o pai?

O pai, o René, deixou Cuba e moramos agora todos no Rio. Ele, eu, a Branca e nosso segundo filho, a quem demos o nome de Fênix, de seis meses.

Tem planos de filmar outro tema relacionado ao seu pai?

Não por acaso, durante os três anos em que trabalhei em Construção, nasceu a vontade de um documentário sobre a relação da arquitetura e o homem.

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