"A Casa de Bernarda Alba" chega a SP

Raros são os que ainda ignoram a existência de bom teatro fora do eixo Rio-São Paulo. Trazendo na bagagem críticas elogiosas e a promessa de representar o bom teatro mineiro, estréia nesta sexta-feira, no Sesc Anchieta a montagem de A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, do grupo Oficcina Multimédia, criado em 1977 e há 18 anos dirigido por Ione de Medeiros.Nesse texto, Lorca escolheu o núcleo familiar e a repressão sexual para abordar o tema do autoritarismo e suas conseqüências ? infantilização, perda de identidade e acomodação ou a insubordinação e a tragédia. Bernarda Alba é uma matriarca espanhola, mãe de cinco filhas. Após o morte do marido, ela decreta luto de oito anos, encerrando suas filhas dentro de casa em total isolamento. No entanto, uma das filhas, Adela, está decidida a não reprimir sua sexualidade e rebela-se contra a tirania materna."A gente quis sublinhar a idéia de que esses pequenos dramas cotidianos - uma mãe pode não querer o prazer da filha por frustração, por não ter vivido o próprio prazer - refletem em sua microestrutura os grandes dramas da sociedade", diz Ione de Medeiros. Para a diretora, as filhas de Alba são privadas da percepção do coletivo maior que é a sociedade. Reduzidas às relações familiares, tornam-se infantilizadas e brigam entre si por mesquinharias. "A matriarca impede suas filhas de viver, o máximo da arbitrariedade, mas o que é um ditador senão alguém que pensa poder decidir sozinho, ou num grupo reduzido de poderosos, o que é melhor para um coletivo?"Ione construiu sua concepção sobre o contraste entre um mundo de relações sociais complexas e a mediocridade da vida daquelas mulheres. "A peça é atual porque as relações humanas não foram resolvidas. Em larga escala, falta consciência da engrenagem que move o mundo. Nada mais nefasto do que o pensamento e as decisões centralizadas em um número reduzido de pessoas."A diretora é responsável também pela concepção cenográfica apoiada basicamente em portas e janelas, peças autênticas do barroco mineiro, material de demolição de igrejas e casarões que seriam reaproveitados na construção de uma casa e "por sorte", puderam ser utilizados na montagem. "Janelas e portas separam interno e externo, o fora e o dentro. Podem significar isolamento e opressão, mas também saídas." O cenário representa a casa de Bernarda Alba, mas de forma não-realista. "É um cenário abstrato, mas com conteúdo. Embora esfacelada, é uma casa."Os atores manipulam as portas e as janelas que não estão presas a paredes. A presença do barroco mineiro acentua o clima de opressão da peça. "É um estilo arquitetônico de grande beleza carregado de sacralidade. E religião, não tem jeito, significa também opressão e culpa. São peças autênticas e pesadas. Gosto da qualidade do movimento do ator quando não ´faz de conta´ que carrega um peso, gosto do tônus muscular, da expressão resultante. Nenhum treinamento corporal alcança a sabedoria e a beleza do movimento de um carregador de rua."Seja nos cenários, figurinos ou trilha sonora, a concepção mantém o tom de peça de época. "Achei importante manter o distanciamento até para facilitar o reconhecimento de sua atualiadade."Serviço - A Casa de Bernarda Alba. De Federico García Lorca. Direção Ione de Medeiros. Duração: 1h50. Sexta e sábado, às 21 horas;domingo, às 19 horas. Ingressos a R$ 15,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo, tel. 3234-3000. Até 29/9

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