Camila Miranda/Divulgação
Camila Miranda/Divulgação

A caravana hipnótica de mulatu

Com aparição surpresa do rapper Talib Kweli, africano trouxe seu ethio jazz a SP

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2011 | 00h00

A música de Mulatu Astatke sugere a constância de uma viagem pelo deserto africano. Paisagens monocromáticas, o ritmo compassado do lombo de um camelo, escalas menores e ondulantes dão a qualidade hipnótica de seu ethio-jazz, fusão de música etíope com jazz modal concebida pelo compositor nos anos 60. Resistir é inútil. Como mostrou assim que subiu ao palco do Sesc Vila Mariana, sábado, Mulatu e sua caravana de oito músicos, que inclui o excelente trompetista inglês Byron Wallen, traficam o mais puro ópio sonoro.

Dewel, arranjada para Duke Ellington nos anos 60, abriu o show com dissonância entorpecente, entoada por sax e trompete sobre uma levada polirrítmica. Trata-se de uma obra prima jazzística em que os instrumentos tocam entrelaçados como duas cobras em transe, repetindo frases até atingir um raro grau de hipnose sonora. O mesmo pode ser dito sobre a segunda composição, Yèkèrmo Sèw, que tirou Mulatu do ostracismo em 2005 ao fazer parte da trilha sonora do filme Flores Partidas, de Jim Jarmusch.

Ao centro do octeto, Mulatu direciona as viagens com a ressonância ofuscada de seu vibrafone. A dificuldade em microfonar o instrumento com fidelidade em um espaço grande o relega, naturalmente, a segundo plano em um grupo de tantos músicos. Mas Mulatu sabe usar isto ao seu favor e acompanha seus meninos com elegância, sugerindo harmonias e ritmos com criatividade por trás da banda. Dos instrumentistas, Wallen é o destaque por conseguir transformar a energia da banda em solos precisos e articulados que não interrompem o transe.

Mesmo assim, ao contrário do jazz puro sangue, a individualidade não é o foco do ethio. O fator África dá ênfase à comunhão dos músicos através da repetição rítmica, fazendo das geniais melodias de Mulato os únicos detalhes que sobressaem ao groove.

O show durou quase uma hora e meia e teve um miolo cansativo depois de um começo alucinante. A energia foi recuperada perto do fim, quando, após a bela mas esticada composição Motherland, Talib Kweli foi introduzido por Wallen. A canja pegou todos de surpresa pois Kweli, incensadíssimo rapper no meio de gravadoras independentes americanas, está de passagem por São Paulo e não fará nenhum show. Acompanhado pela funqueira etíope, Kweli metralhou um freestyle altamente técnico, mas quase incompreensível. Só deu para entender que, como todos, ele estava muito honrado por estar no mesmo recinto que o mestre etíope.

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