A cara da Bahia pop contemporânea que merece vir à tona

Crítica:

O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h10

Lauro Lisboa Garcia

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

O que faz Marcia Castro diferente de outras cantoras de sua geração? Seu atrativo especial é, em primeiro lugar, saber escolher repertório. Ok, é o mínimo que se espera de uma profissional, mas a maioria "dança" a partir daí.

Mais e melhor: ao contrário da maioria das intérpretes de sua geração, ela não se arvora a compor. Porém, muito além do timbre vocal e da identidade de estilo, Marcia se destaca como coautora de tudo o que canta, tal é o envolvimento e a capacidade de transformar cada canção com frescor contemporâneo, mesmo que elas beirem os 40 anos.

É o caso da clássica e um tanto desgastada Preta Pretinha (Moraes/Galvão), de 1972, revitalizada como irresistível samba duro com toques de latinidade e a inserção de um trecho de Gererê, do Gera Samba (pré-É o Tchan), e De Pés no Chão, irônica faixa-título do CD, lançada por Rita Lee em 1974. Pode crer que nesses casos quem já conhecia até esquece dos originais. A malícia e o duplo sentido também se fazem presentes em História de Fogo (Otto), Você Gosta (Tom Zé) e Vergonha (Luciano Salvador Bahia), entre o sensual, o sacana e o cômico.

Melhor ainda quando ela tira do limbo canções obscuras como Catedral do Inferno (Cartola/Hermínio Bello de Carvalho) e Nó Molhado (Monsueto Menezes/José Batista), que cheiram a inéditas. Helio Flanders, do Vanguart, dá toque especial no dueto com ela em 29 Beijos, outra preciosidade dos Novos Baianos Moraes e Galvão, de 1971. Até um Gonzaguinha politizado e irônico de Pois É, Seu Zé cai bem no contexto. De Gilberto Gil e Jorge Mautner ela traz Crazy Pop Rock, da fase menos conhecida do período em que baiano permaneceu no exílio, portanto, aí também tem um subtexto político.

Ela já disse que a Bahia de sua música "não se dá necessariamente num ritmo, numa levada, mas num jeito de entender, de compor, de arranjar, de andar". Ao lado de Mariene de Castro, Manuela Rodrigues, Tiganá, Baiana System e outros jovens expoentes, Marcia Castro é a cara da Bahia popular contemporânea que já passou da hora de vir à tona para o restante do Brasil. / L.L.G.

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