Akira Studio
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A caótica Olimpíada de 'Akira' anteviu pandemia

Criado em 1982, mangá aponta para futuro distópico, em que um vírus põe em risco os Jogos de 2020

France Presse, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2020 | 05h00

Um painel indica a contagem regressiva dos dias para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. Ao lado, uma pichação: “Anulem-os”. Assustadoramente atual, esta cena reforçou ainda mais o fascínio exercido por Akira, o mangá cult à qual pertence. Criado por Katsuhiro Otomo, Akira foi primeiramente publicado em fascículos em uma revista especializada no Japão entre 1982 e 1990. A obra foi condensada em 1988 em um filme de animação (anime) do mesmo nome, que lhe rendeu popularidade mundial.

A história se desenvolve em 2019 em uma sinistra megalópole chamada “Nova Tóquio”, erguida próxima à ex-capital, apagada do mapa por uma misteriosa explosão em dezembro de 1982 que desencadeou a 3ª. Guerra Mundial. O relato gira em torno de Tetsuo, membro de uma gangue de jovens delinquentes motoqueiros e cuja vida muda radicalmente quando descobre ter poderes psíquicos poderosos, cobiçados pelo exército.

“O universo de Akira se resume a uma palavra: Cyberpunk. Um mundo futurista, com tecnologia avançada, mas com um enorme fosso entre ricos e pobres”, analisa Matthieu Pinon, especialista francês em mangá e animação japonesa, entrevistado pela AFP.

Sem ser um elemento central da história, os Jogos Olímpicos aparecem em várias cenas desta obra “antissistema”, e apresentam semelhanças assustadoras com os verdadeiros Jogos de Tóquio-2020, agora adiados para 2021. Além dos Jogos em Akira serem sediados por Tóquio em 2020, “a história se desenvolve de uma maneira que sugere que seu cancelamento ou adiamento parece inevitável”, observa Kaichiro Morikawa, especialista em cultura pop japonesa da universidade Meiji, em Tóquio.

O governo japonês chamou Tóquio-2020 de “os Jogos da reconstrução”, para testemunhar a recuperação do país após as tragédias do terremoto e do tsunami de 2011, que provocaram a catástrofe nuclear de Fukushima. Em Akira, também “é possível imaginar que os Jogos Olímpicos buscam (por parte das autoridades) reencontrar uma espécie de grandeza após a destruição”, analisa o especialista em quadrinhos Patrick Gaumer à AFP.

Assim, o estádio olímpico na ficção é construído no local da “cidade velha” devastada de Tóquio, perto da cratera deixada pelo misterioso cataclismo de 1982, uma clara alusão às bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945, completa Gaumer.

Premonição? Mas, nas últimas semanas, é principalmente a imagem da contagem regressiva dos Jogos com a mensagem de protesto “Anulem-os” em Akira que viralizou nas redes sociais, à medida que o coronavírus tornava cada vez mais improvável a realização dos verdadeiros Jogos de Tóquio-2020, que acabaram adiados para o ano que vem.

Outra semelhança assombrosa com a realidade: na edição original do mangá em japonês, uma página dupla de transição entre dois volumes apresenta falsas matérias da imprensa ao fundo. “A OMS (Organização Mundial da Saúde) critica as medidas tomadas contra o vírus”, intitula uma delas. Contudo, este detalhe está fora do contexto da história do anime e “é preciso vê-lo como um elemento que se junta ao ambiente, só isso”, explica Pinon.

Akira, obra profética? Na verdade, trata-se “mais de uma reinterpretação do passado recente” do Japão, do pós-guerra, “projetado em um futuro próximo de ficção”, argumenta o pesquisador Kaichiro Morikawa.

Os acontecimentos mais significativos de nossa época, na qual cresceu o autor Katsuhiro Otomo (nascido em 1954), estão mesclados: os Jogos de Tóquio-1964, que marcaram a renovação do país após a 2.ª Guerra Mundial e o traumatismo das bombas atômicas, além “das manifestações estudantis e sindicais de 1968, do autoritarismo do governo da época, do urbanismo frenético de Tóquio”, enumera Matthieu Pinon.

Em relação às curiosas coincidências de Akira com a atualidade dos Jogos de Tóquio-2020, “tudo que posso dizer é que uma semelhança deste tipo acrescenta uma estranha sensação de realidade à leitura do que já era uma obra-prima”, conclui Morikawa. 

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