A campainha da porta no meio da noite

Crônica de uma visita inesperada ao experiente 'historiador de domingo' por um casal em busca apenas de um autógrafo

Boris Fausto, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Quando na Alemanha nazista a campainha da porta soava na calada da noite, certamente não era um leiteiro madrugador, mas provavelmente a Gestapo. O nazismo se foi há várias décadas, mas nem por isso o som de uma campainha deixou de associar-se ao receio, ou mesmo ao medo, em certos países e em certas situações. No Brasil, isso aconteceu nos tempos da ditadura militar e continua a acontecer nos dias de hoje, embora o DOI-Codi e outros órgãos da repressão também tenham desaparecido.

Qualquer cidadão das grandes cidades brasileiras sabe que estou falando do medo dos assaltantes. As campainhas soam, anunciando armadilhas imaginosas, não percebidas pelos moradores das casas: entrega de correspondência via Sedex, conserto da geladeira, entrega de flores, leitura da água, da energia elétrica, etc.

Esse clima ajuda a explicar a sensação de desconforto quando, num sábado à noite, o soar da campainha entrou pela minha casa adentro. Não esperava ninguém, estava sozinho e como qualquer paulistano que tenha juízo - não é preciso ser paranoico - a hipótese de assalto me assaltou. "Quem é?", perguntei rispidamente pelo interfone para não deixar dúvidas quanto a minha firmeza e a minha irritação. "Esta é a casa do professor Boris Fausto? Se ele estiver gostaria que autografasse dois livros: Negócios e Ócios e Memórias de Um Historiador de Domingo.

Hesitei. A armadilha, se armadilha fosse, era inusitada. Estaria diante de um leitor bandido, ou de um bandido leitor? A hipótese me pareceu remota, mas se fosse verdadeira, era tão engenhosa que eu tinha a obrigação de dar uma oportunidade ao ladrão. Quem sabe - deduzi da pergunta - o assaltante estaria interessado apenas em levar alguns livros da minha reduzida biblioteca? Tudo isso se passou em poucos segundos, como também em poucos segundos cresceu minha curiosidade. E se o homem não preparara armadilha alguma e era um cidadão especial à cata de autógrafos não de uma estrela, nem de um jogador de futebol, mas de um simples historiador?

Abri a porta da rua com cautela e dei de frente com um homem alto, moreno, de olhos tranquilos. Embora não seja adepto de teorias lambrosianas, perdi o receio e ele entrou com sua esposa sorridente e discreta.

Começamos a conversar, e o Britto - assim já o apresento - disse que queria mesmo meu autógrafo. Para alongar um pouco a conversa, perguntei-lhe o que fazia profissionalmente, mas ele foi falando de seus talentos, entre eles o de historiador, e mais, "um historiador de domingo". Nas horas livres de que dispõe, muito ligado à cidade de São Paulo, escreveu um livro minucioso sobre o bairro de Tremembé, publicado numa bela edição.

Para mim, o Tremembé, é um ponto da zona norte cheio de evocações, pois o Horto Florestal, que aí se encontra, foi o local preferido, na minha infância, para os piqueniques familiares de domingo. Um aspecto significativo do bairro é a presença de imigrantes alemães bem-sucedidos, em contraste com uma parte dos primeiros alemães que emigraram para São Paulo, há quase cem anos. Estes instalaram-se em Parelheiros, no outro extremo da cidade, e muitos de seus descendentes aí se transformaram em caboclos alourados, de pele curtida e pés descalços.

Volto à trilha central da história. Um autor torna-se em geral conhecido por um livro ou dois. No meu caso, uma referência frequente - "Boris Fausto, o senhor não é aquele que escreveu A Revolução de 1930?" - me deixa meio desapontado por referir-se a um livro há mais de 40 anos. Porém, o Britto me conhecia pelos dois volumes da minha autobiografia e fora em busca de Negócios e Ócios, texto esgotado, num sebo do centro da cidade. A conversa ganhou rapidamente um tom afetivo, e a Adriana, esposa do Britto, pediu licença para tirar nossas fotografia, para as quais consegui sorri com naturalidade.

Assinaturas lançadas nos livros, quase ao final da visita, Britto me contou um fato curioso. Ele tinha a referência da minha rua, mas não tinha o número. Então, pela foto que ilustra Memórias de Um Historiador de Domingo foi percorrendo a rua, de casa em casa, atravessando uma avenida, até encontrar as formas arquitetônicas "brutalistas" da minha quadragenária residência.

Mas se tudo dera certo, ou mais do que certo, como se explicaria aquela persistência, aquela "ousadia", aquele faro para me localizar? O segredo estava na profissão. O Britto e a Adriana são persistentes e ousados porque são oficiais de Justiça. No meu caso, em vez de entregar uma irritante intimação, eles me proporcionaram bons momentos, num silencioso sábado à noite.

BORIS FAUSTO É HISTORIADOR, PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E AUTOR DE A REVOLUÇÃO DE 30 - HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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