A caminho de novos e mais altos patamares

Sinfônica de Heliópolis abre ano com concerto memorável

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2011 | 00h00

Décadas atrás, quando uma orquestra queria marcar um concerto como uma virada em sua existência, programava Beethoven. Mas, de uns dez anos para cá, Mahler tem funcionado como sinalizador de fatos decisivos acontecendo na vida das orquestras. Foi assim com a Osesp anos atrás, quando programou sua Segunda Sinfonia, não por acaso apelidada "Ressurreição", para marcar sua maioridade. E repete-se agora com a Sinfônica Heliópolis sob nova direção.

Isaac Karabtchevsky escolheu a mesma peça para marcar uma nova etapa na vida da orquestra, em concerto na manhã de domingo. Pois acertou. O concerto de abertura de sua temporada 2011 pode ser considerado um divisor de águas na vida deste vitorioso projeto musical, hoje plenamente consolidado. E como Karabtchevsky foi decisivo. Além de uma regência claríssima para os músicos, coro e solistas, quesito essencial para jamais deixar titubeante uma orquestra deste tipo, o novo titular imprimiu a maturidade necessária para se enfrentar uma sinfonia tão portentosa quanto esta.

Tais qualidades já transpareceram nos cerca de 20 minutos eletrizantes do allegro maestoso inicial, onde só atua a orquestra. É claro que, examinados com lupa, deslizes ocorreram aqui e ali - mas foram diminutos em relação à performance (já vi muita orquestra profissional ficar abaixo deste padrão muito bom de Heliópolis). Ainda faltam ajustes nas cordas - sobretudo nas arcadas dos violinos, ainda não inteiramente sincronizadas, o que provoca instabilidade. Mas as madeiras e metais, expostas a solos e intervenções variados, foram muito bem.

A energia, o comprometimento e a alegria de fazer música - três qualidades que fizeram o diferencial da mais conhecida orquestra congênere de Heliópolis hoje no mundo, a Orquestra Sinfônica Jovem Simon Bolívar, da Venezuela - continuaram presentes nos movimentos subsequentes, explodindo no monumental finale com solistas e um coro encorpadíssimo, formado pelos corais da Cidade de São Paulo e da Cultura Inglesa.

Vamos aos detalhes. Fiquei com pena da soprano Carmen Monarca. Pela segunda vez em dez dias na Sala São Paulo (a primeira foi com a Sinfônica do Estado de São Paulo na semana passada), sua voz notável mas pequena foi encoberta quase o tempo todo pela orquestra. Foi, quem sabe, o único deslize de Karabtchevsky, de resto impecável. Em compensação, a poderosa voz da meio-soprano Edneia de Oliveira foi ouvida na maior parte de seus solos: graves guturais quentes e plenos, contrapostos a agudos angelicais. Os corais reunidos não exibiram a qualidade técnica nem afinação dos que atuaram semanas atrás na Nona de Beethoven (Coro Osesp e Coral Lírico Municipal), mas não chegaram a comprometer.

A maior lição deste importante concerto é que, a partir de agora, a Sinfônica Heliópolis conta com um maestro com experiência e maturidade suficientes para alçá-la a um novo e mais alto patamar. Isaac Karabtchevsky, percebe-se, galvaniza aquela centena de jovens músicos e canaliza seu entusiasmo para uma prática musical de maior qualidade em repertórios bem mais exigentes. Precisa mais?

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