A câmera cidadã de Fernando Solanas

Melhor filme latino da Mostra? O melhor filme da 35.ª Mostra é latino - Las Acacias, do argentino Pablo Giorgelli. Mas há também o díptico de outro argentino, Fernando Solanas. 'Pino', como é chamado, virou sinônimo de cinema político. Ele tem marcado a Mostra com seus documentários - Memória del Saqueo, A Dignidade dos Ninguém. Solanas propõe agora A Terra Sublevada, 1 e 2.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2011 | 03h06

Desde 1970, com o mítico La Hora de los Hornos, que investiga a violência na Argentina, Solanas tem imprimido uma marca própria - a dele - ao cinema documental da América Latina. E ele se preocupa sempre em expressar na tela a dignidade dos ninguém - talvez devesse ser esse o subtítulo adjacente à toda sua obra. Terra Sublevada, Parte 1, Ouro Impuro e Parte 2, Ouro Negro.

A obra de Solanas é em boa parte, senão toda, a memória do saque à que a América Nuestra vem sendo submetida, desde séculos, pelas potências coloniais. As veias abertas da América Latina. Ouro Impuro mapeia os campos de mineração do noroeste argentino - em San Juan, La Rioja, Catamarca, Tucumáqn e Salta. A depredação das riquezas mineiras, a degradação do meio ambiente pelo uso de substâncias tóxicas a céu aberto. Engenheiros, professoras, ambientalistas, indígenas, Solanas dá voz aos protagonistas dessa tragédia.

Ouro Negro - a história agora mostra como o neoliberalismo, na Argentina dos anos 1990, entregou os campos de petróleo e mineração às grandes corporações. Os métodos de extração e o uso de substâncias tóxicas danificaram nascentes de rios. A luta avança - Solanas não apenas documenta o estrago como mostra o que está sendo feito para combater o inominável. Os defensores do mundo global vão dizer que, como o francês Nicholas Klotz, Solanas é um dinossauro. Uma relíquia de esquerda que não sabe mais seu lugar no mundo. Ainda bem que existem vozes dissonantes como as de Solanas.

Ele produz, dirige, escreve, fotografa, monta os dois filmes - Solanas só não assina a música. Em ambos os filmes ela é creditada a Mauro Lázaro. Quem viu Tangos, o Exílio de Gardel e, depois, Sur - Amor e Liberdade, sabe da importância que a trilha tem no cinema de Solanas. Por mais informação que ele concentre em seus filmes, Solanas sabe que a linguagem é essencial. A estética, por mais política que seja, é soberana.

É possível manter a indignação sendo poético? Essa pergunta ronda o cinema de Fernando 'Pino' Solanas. Em 2004, há sete anos, o Festival de Berlim lhe outorgou um Urso de Ouro especial por sua carreira. Ele não teria recebido a distinção, se seus filmes políticos não tivessem a contrapartida de ser, acima de tudo, cinema. Lutando, com a arma da câmera, pela dignidade dos ninguém, Solanas, na verdade, está propondo um cinema cidadão, de guerrilha. Em São Paulo, na Mostra, ele anunciou que o próximo filme, também documentário, será sobre a propriedade e o uso da terra.

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