A busca pela identidade

Subitamente, a amnésia enevoa os pensamentos de Rogério Marques, um publicitário que se encontra em uma semana decisiva de sua vida profissional. Ele está no aeroporto, esperando por sua bagagem, quando primeiro descobre que não sabe qual é a sua mala. Na verdade, ele nem sabe onde está e, pior, quem é. Esse é ponto de partida de Identidade (...), novo espetáculo solo do ator Vinícius Piedade, que passou os últimos quatro anos em turnê mundial com o espetáculo Cárcere. "Esse personagem é comum e, nisso, ele carrega um pouco de todos nós", diz o ator-criador. "A questão da sua identidade, que veio à tona com uma amnésia repentina, é a questão nossa de cada dia, a busca dessa identidade ou mesmo da afirmação dessa identidade."

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

16 Março 2012 | 03h10

Vinícius Piedade é um artista inconformado. Em Carta de Um Pirata (2004), por exemplo, seu primeiro solo, ele utilizava a voz de um fora da lei para defender justamente os esquecidos pela lei. Em seguida, com H.E.R.Ó.I.S. (2008), ele transformava em heróis anônimos seres como um condenado à morte e deficiente visual que vive a angústia de conhecer um novo amor na noite de ano-novo. Essa constante espera de transformações, aquelas consideradas vitais, é o que move seu teatro.

Em Identidade (...), ele parte do esquecimento do publicitário para levar o público ao autoquestionamento. "O vazio criativo que vive em função da amnésia faz com que ele tente reencontrar o que é, através do que foi. O medo de que isso seja apenas o começo de seu abismo o lança de uma vez nesse mesmo abismo." E, como apenas um período específico de sua vida aparece claro em suas lembranças, justamente a adolescência (momento de construção da identidade), Marques sai em busca dos cinco inseparáveis amigos daquela época. A intenção é descobrir, a partir dos fiapos de lembrança, o que cada um se tornou. Ou o que cada um fez da vida. Ou o que a vida fez de cada um deles.

Como nos espetáculos anteriores, Piedade faz com que o ritmo das descobertas seja moldado pela trilha sonora especialmente criada por Manuel Pessôa de Lima. "São dezenas de fragmentos de sons e silêncios que são disparados randomicamente", conta o músico. "O ator não tem como prever o momento de entrada dos eventos sonoros, sejam pausas repentinas ou composições densas. A trilha capta a condição da personagem, imerso na sua amnésia e flashes repentinos do passado. Assim, o jogo entre cena e música se torna fluido."

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