A busca do tempo perdido (3)

D. Marieta usava sapatos altíssimos e vermelhos, de onde saíam pernas magras e totas. Pintava-se muito com o batom emplastrado como uma ferida em meio a rugas que escorriam em seu rosto de 80 anos, encimado por sobrancelhas feitas a lápis e olhos com sombra azul.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h08

Ela e sua filha se mudaram para o térreo de nosso prédio. A primeira coisa que fizeram foi derrubar o grande flamboyant plantado no jardim do seu apartamento que nos brindava com chuvas de flores vermelhas. Eu vi com horror a queda da árvore tão linda, deixando apenas o cimento frio como uma lápide. Com elas, veio o neto e filho, Antonio Augusto, da mesma idade que eu, que elas tratavam como um bibelô precioso, contando suas graças para minha mãe - de como ele gostava de brincar de mulher grávida com um travesseiro na barriga. Elas eram donas do menino, obrigando-o a estudar piano que enchia as manhãs com escalas sem fim. Eu era talvez seu único amigo, pois os garotos da escola estranhavam sua fragilidade, seus cabelos encaracolados. A mãe e a avó sirigaita cuidavam do Antonio Augusto com protecionismo feroz e pareciam se vingar de alguma coisa passada.

A existência do pai tinha sido banida dos domínios de d. Marieta e sua filha, sob a desculpa de que era caixeiro-viajante. "Nada disso", minha mãe diagnosticou, "são separados, e elas têm vergonha e escondem..."

Seu Plácido era o nome do pai, que vinha, sim, tímido, quase invisível e ficava brincando com o filho, ali no ex-jardim cimentado que ele olhava com muda tristeza. Ele parecia gostar muito do filho único que, eu percebia, demonstrava uma inquietude constrangida ao conversar com o pai, como se estivesse desobedecendo a alguma ordem. Seu Plácido entrava raramente no apartamento para entregar o dinheiro da pensão e, talvez, para exibir à vizinhança uma aparente "normalidade".

Depois, ia embora ou, para irritação da avó, de olhos duros na janela, levava o menino até o botequim onde tomava silenciosamente um copo de leite e dava um guaraná para o filho. Essa rotina durou vários anos até nossa adolescência, quando já era evidente o desgosto de seu Plácido com a fragilidade feminina de Antonio Augusto.

O mundinho em que eu vivia era vazio, mas tinha alguns habitantes, ao contrário de hoje - um vazio que parece cheio. Tinha d. Elsa, linda, que morreu de câncer fulminante, tinha o médico espírita de cara vermelha e todo vestido de negro, tinha o paralítico que ouvia jazz muito alto.

E tinha Miss Baby. Ela devia ter uns 40 anos, ainda bonita, grande e se movia diferentemente das outras mulheres da rua. Andava com a leveza corajosa de mulheres vividas, ela, ex-vedete do Cassino da Urca. Morava sozinha e, de tempo em tempo, aparecia um visitante com uniforme da Panair. As vizinhas evitavam-na - ela destoava da paisagem moral do bairro. Miss Baby vivia na varanda com um penhoar solto, onde se entreviam seios firmes. Ela nos fascinava com sua liberdade, seu mundo diferente das mães da rua. Uma tarde, eu vi que seu Plácido passou em sua porta e conversou com ela, com a tranquilidade de velhos amigos. Teria ele conhecido Miss Baby nos bons tempos do cassino?

Nessa época, eu e Antonio Augusto conversávamos muito à noite, na metafísica de adolescentes virgens na beira do mar que batia nas pedras povoadas de caranguejos. Éramos apaixonados por literatura - ele muito mais do que eu - falando sobre o rock que surgia e atrizes americanas que ele colava no espelho. Lembro-me do espanto da poesia mágica, quando descobrimos Rimbaud. Sob uma noite muito estrelada ele me falou: "O 'nada' não existe. É ilógico; sobre o 'nada' não se fala..." Nós não sabíamos quem éramos, mas já falávamos do universo.

Um dia, ele me procurou excitadíssimo: "Papai me disse ontem que a Miss Baby quer me conhecer; eu fiquei com medo e disse que mamãe não queria que eu nem olhasse para ela. Aí, papai me agarrou pelos ombros e me sacudiu. Ele disse que ela está me esperando de tarde. E, me sacudindo com força, falou que eu estava proibido de falar para mamãe e vovó..." Ele viu nos olhos de seu Plácido que teria de ir.

No dia seguinte, preparou-se com zelo para o temido encontro; tomou um longo banho, raspou a levíssima penugem de seu rosto, escolheu camisas, inventou um penteado mais para Elvis Presley e foi. Fiquei com a impressão de que ele perderia a virgindade antes de mim.

"E aí?", perguntei, ansioso, quando ele voltou de noite.

E ele contou que "chegou morrendo de medo quando ela abriu a porta, mas que ela foi muito bacana e falou que papai tinha dito a ela que eu queria conhecê-la e aí eu entrei e ela ficou olhando para mim com um sorriso simpático, chegou perto e fez uma festa no meu cabelo, dizendo que era lindo e desmanchou meu topete de Elvis e aí ela perguntou se eu achava seus seios bonitos e aí ela abriu o penhoar um pouco e ficou me olhando e perguntou se eu queria pôr a mão neles..."

"E aí?", perguntei sem ar.

"Aí, eu segurei os seios dela e ela ficou rindo da minha falta de jeito. A casa é cheia de retratos dela no cassino, cantando, e tinha também na prateleira um lindo arranjo de cabeça, um chapéu todo de flores e fitas e, aí, ela pôs outro arranjo na cabeça e perguntou se eu queria experimentar aquele. Foi o máximo; eu e ela cobertos de plumas, fizemos um dueto lindo. A gente cantou: 'Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim', imitando a Carmen Miranda. Foi o máximo!"

"E aí? Depois...", eu perguntei perplexo.

"Depois, nada. Ela me abraçou muito, com os olhos cheios d'água e me deu um presente..."

"Só isso?"

"É... Me deu este presente aqui."

Ele abriu a camisa e me mostrou um colarzinho de pérolas baratas...

Ele tinha mudado. Seu rosto estava sério, de quem tinha entendido uma coisa nova.

Olhamo-nos em silêncio. Ele sorriu e me tocou no ombro, amigável e mais adulto.

Era feliz.

Naquele ano, minha família mudou-se para Copacabana. Falamos por telefone algumas vezes mas, aos poucos, sumimos um do outro.

Fui tocando minha vida e, anos depois, soube que Antonio Augusto fora encontrado morto, em circunstâncias mal esclarecidas.

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