A busca contínua por uma síntese

Trabalho instável e atividade política dificultam balanços

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Jean-Paul Sartre era um buraco escandaloso na obra de Jacques Derrida, o principal filósofo que se lhe segue na cronologia francesa. Derrida discorrera sobre todos os predecessores e contemporâneos, no entanto, ao final do milênio, o silêncio ainda afugentava o carismático Sartre. Por ocasião do cinquentenário da revista Les Temps Modernes, Claude Lanzmann solicita a tão esperada leitura ao pensador da desconstrução. Definitivas são as palavras que abrem o ensaio: "Chega o dia da entrega, e não estou pronto. Algum dia estive preparado?"

Algum dia alguém esteve preparado para escrever sobre Sartre? A obra livresca ganha peso pela força dos deslocamentos ideológicos. As intervenções públicas são prova de instabilidade política. O leitor ocasional navega sem norte por sua vida e obra; o especialista não tem, ou (ainda) não sabe como domar mobilidade e instabilidade. Leituras individuais são precárias. Alguém se prepara para a síntese?

Numa cultura onde predomina a contenção nas reações e a litotes no estilo, Sartre é a exceção, assim como o dramaturgo Jean Racine e o poeta Paul Valéry são a regra. Ele é tão luxurioso em estilos quanto o renascentista François Rabelais e tão excessivo ideologicamente quanto o contemporâneo Louis-Ferdinand Céline.

A sucessão dos livros publicados, dos deslocamentos ideológicos e das intervenções políticas trabalha à semelhança dum complicado, preciso e lógico mapa ferroviário francês. Livros, deslocamentos e intervenções tentam domar pela emoção e a racionalidade do instante o indomável território da vida e da história, conduzindo o consulente a ramificações em multidireções, cuja trama só ela desenharia a complexidade da existência dum indivíduo. Daquele indivíduo que se quis "sem importância coletiva" e a teve por causa dos excessos e da luxúria. Seu sucessor não é o nietzschiano Deleuze nem o desconstrucionista Derrida. Tampouco é algum "novo filósofo" midiático. É o multiforme Michel Foucault.

Pela exposição dessas razões desarrazoadas é que se devem ressaltar alguns traços permanentes do legado sartriano. Alheio aos sistemas fechados da filosofia, sempre seguro, no entanto, das suas convicções político-ideológicas por antípodas que se apresentassem em relação ao passado recente, Sartre se destaca pelo modo como exerceu a crítica da literatura. Suas leituras de Baudelaire, Genet e Flaubert se tornaram marcos. As coleções de ensaios culturais, intituladas Situações, são obrigatórias.

Por duvidar da racionalidade imposta pela tradição filosófica e religiosa à experiência existencial e por ser observador ferino do drama de viver, Sartre tem momentos luminosos na sua dramaturgia, com destaque para Huis-clos (Entre Quatro Paredes). Destaque ainda para As Mãos Sujas.

Também tem ele dois momentos notáveis na ficção. Refiro-me ao romance A Náusea e ao autobiográfico As Palavras. A Náusea é um romance dividido em duas partes. Na primeira, Roquentin investiga a fundo a vida do medíocre marquês de Rollebon para escrever sua biografia. Tão bem já conhece o objeto de estudo que já não se conhece a si mesmo. Decide, então, assassinar no papel o marquês. E passa a anotar o dia-a-dia da própria vida nas folhas de papel destinadas à biografia do marquês.

A cena culminante é tomada de empréstimo ao personagem Lafcadio, no romance Os Porões do Vaticano, de André Gide. Na escrivaninha, a folha de papel com quatro linhas escritas e um canivete. Roquentin não hesita. Corta a palma da mão com a lâmina aberta. Enxerga com satisfação a mancha de sangue. Acompanhemos o texto: "Quatro linhas escritas numa folha branca de papel, uma mancha de sangue, eis o que faz uma bela lembrança". A mancha de sangue desmente a certeza da história burguesa de responsabilidade dos "salauds" e justifica a estória dum indivíduo descompromissado. Que esta seja "bela e dura como o aço e leve as pessoas a terem vergonha da própria existência"! A história coletiva e pessoal é uma folha manchada de sangue.

SILVIANO SANTIAGO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO. AUTOR, ENTRE OUTROS, DO ROMANCE HERANÇAS (ROCCO) E COLUNISTA DO SABÁTICO

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