Divulgação/Instituto Moreita Salles
Divulgação/Instituto Moreita Salles

A Brasília do passado pelo olhar do futuro

A capital como construção de uma utopia é focalizada em mostra do IMS

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

É quase impossível pensar na capital do país em seu estado embrionário sem passar pelas fotos do francês Marcel Gautherot (1910-1996), que registrou sua evolução arquitetônica passo a passo. Ele, o alemão Peter Scheier (1908-1979) e o húngaro Thomas Farkas, de 86 anos, radicado desde os anos 1930 no Brasil, formam o núcleo básico da exposição As Construções de Brasília, que o Instituto Moreira Salles abre hoje na Galeria de Arte do Sesi/SP. A mostra reúne 140 fotografias do acervo do instituto, além de uma seleção de 60 obras de artistas modernos e contemporâneos que também adotaram a capital como tema. Nesse segundo núcleo estão criadores de várias gerações, do artista concreto Waldemar Cordeiro (1925-1973) ao fotógrafo paulista Caio Reisewitz, de 43 anos.

As diferentes visões em épocas diversas da capital projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer revelam no campo fotográfico, no desenho, na pintura e nas artes gráficas como os artistas selecionados - e a lista dos participantes tem ainda o construtivista Almir Mavignier e Cildo Meireles - interpretou a modernidade de Brasília, não só como revolucionário projeto urbanístico mas como utopia política e artística. A curadora da exposição, Heloísa Estrada, a propósito, lembra no texto de abertura do catálogo da mostra que o filósofo e poeta alemão Max Bense, professor da escola de Ulm, sucessora da Bauhaus, viu Brasília como um elemento visual, um cartaz anunciando ao mundo uma possível combinação entre o pensamento cartesiano e a "civilização tropical", apontando novos caminhos formais para uma Europa cansada pelo peso da tradição.

Esse cartaz toma forma no livro criado pela artista Mary Vieira, edição limitada de dez cópias (1959) criada a partir do original exibido na mostra Interbau de Berlim em 1957, que apresentou pela primeira vez ao público europeu a Brasília de Niemeyer. É interessante comparar essas páginas construtivistas de Mary Vieira com o olhar de Gautherot, que interpreta Brasília como um projeto minimalista, elegendo seus edifícios como pretextos para construções de fatura concreta - o movimento liderado por Waldemar Cordeiro estava no auge quando o francês registrou o Congresso Nacional como formas geométricas puras. As fotos do alemão Peter Scheier seguem o mesmo princípio formal.

Já o foco de Thomas Farkas foi a massa de operários que construiu a capital. Farkas capturou o outro lado da opulência, as primeiras favelas que surgiram em torno do Plano Piloto. Seu correspondente atual seria Mauro Restiffe, que registrou a posse do presidente Lula em 2003 sem políticos por perto, como se a mesma massa não fosse convidada para a festa. Já o fotógrafo Caio Reisewitz segue o olhar arquitetônico de Gautherot, dirigindo sua câmera - obcecada pela simetria - para o interior do prédio do Itamaraty. A síntese das duas visões sobre Brasília está na videoinstalação Futuro do Pretérito, do fotógrafo e artista plástico paulista Rubens Mano, dois painéis que mostram os contrastes entre a vida no Plano Piloto e a das cidades satélites.

AS CONSTRUÇÕES DE BRASÍLIA

Galeria de Arte do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, tel. 3146-7405. 10 h/ 20 h (2ª, 11 h/ 20 h; dom., 10 h/ 19 h). Grátis. Até 16/1.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.