''A bossa nova deixou de prestar um serviço''

Sérgio Ricardo,[br]Compositor, cineasta e artista plástico

Entrevista com

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

As vaias não tinham ouvidos, não adiantava falar com elas. Sérgio Ricardo pedia calma, silêncio, compaixão, até que ouviu a voz do pai árabe dizendo lá atrás, em sua infância, que nunca levasse desaforo pra casa. Era o que ele precisava. Aquele povo do Festival da Record não merecia os caprichos de sua Beto Bom de Bola. Que ficassem com Gil, Caetano, Edu Lobo. Sérgio, depois de soltar um "vocês venceram", ergueu o violão em meio à gritaria, martelou-o no palco e lançou seus restos à plateia. Sacrificava ali não só um belo Di Giorgio série Autor ano 1966, cordas de nylon, como também uma carreira toda que viria. Sua própria carreira. Ao receber o repórter no apartamento de sua biógrafa Eliana Pace, em São Paulo, Sérgio, hoje com 77 anos, 60 de carreira e três filhos, sabe que vai falar sobre aquela noite de 1967. E fala, bem mais leve do que se pode imaginar.

Sérgio hoje não é só um violão quebrado. O homem que saiu da bossa por querer falar de mazelas e fazer protestos jamais deixou a música. Seu mais recente disco, o elogiado Ponto de Partida, é de 2008, e sua biografia, Canto Vadio, sai no próximo dia 10 pela Coleção Aplauso. Envolvido com artes plásticas, inaugura hoje uma exposição de 20 telas na Casa das Rosas. Nada que o distancie daquele violão espatifado de 1967.

O senhor se diz um dissidente da bossa nova. É isso mesmo?

Sim, por questões meramente sociais, políticas. Não concordava com o que eles diziam, eu concordava com a estética da coisa, a linguagem renovada, o estilo que João Gilberto impregnou no samba, mas de repente eu queria outras coisas, subir o morro, falar do Nordeste, falar da fome, da miséria, e essas coisas não tinham nada ver com bossa nova.

A bossa perdeu por não assumir um discurso mais político?

Olha, por um lado, ela deixou de prestar um serviço, e talento para isso não faltava para aquele pessoal.

O que passou por sua cabeça naqueles segundos em que ficou olhando para uma plateia que o vaiava sem parar?

Antes de subir ao palco, avisei: olha, esse tipo de coisa tá errado. Se a plateia não gostar da música, que não aplauda. Pelo volume do aplauso, você sabe quem ganhou. Esse negócio de vaiar... parece que a gente cometeu um crime, como é que você vai se manifestar diante de uma obra de arte dessa maneira? Você vai a uma exposição e diz "aquele quadro ali eu não gostei, não vou comprar". Não precisa chegar lá e destruir o quadro. É a mesma coisa com a música. Vi Nana Caymmi cantar vaiada do começo ao fim, e ela continuou cantando, com lágrimas descendo dos olhos. Não houve um artista que não tenha sido vaiado. Chico Buarque foi vaiado. Tom Jobim, o maior músico do mundo, entrou no Maracanãzinho debaixo de uma vaia monumental. Aí, o que pensei naquela hora foi "tem alguma coisa errada, para que esse barulho todo? Não custa nada esse cara ficar quieto aí e esperar a música, pô". Foi aí que me veio uma coisa meio atávica.

Como assim?

Uma coisa de ensinamento de pai. Ele sempre dizia para eu não levar desaforo pra casa.

O que seu pai achou daquilo?

Era a primeira vez que meu pai estava na plateia para me ver. Ele não queria que eu fosse músico. E ali eu pensei: poxa, mas é isso que eu vou mostrar para o meu pai? Mas ali, quem na verdade segurou a onda... Não, isso aí é melhor nem falar

Agora o senhor pode falar...

Não, é uma contradição muito grande, mas quem segurou a barra ali naquela noite foi o delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury, morto em 1979, ficou conhecido pela crueldade com a qual perseguia opositores da ditadura). Uma contradição total.

Se não fosse a cena do violão, sua carreira musical teria sido mais reconhecida, não? Se arrepende de ter quebrado aquele instrumento?

O que me sustenta é o reconhecimento de minha classe. Um camarada como Chico Buarque, que está com uma música minha para colocar uma letra, não faria isso se não me considerasse um bom músico. Chico é a expressão máxima. Carlos Drummond de Andrade, certa vez, mandou uma poesia para eu musicar. E não foi favor nenhum a mim, não. Isso tudo não me dá nenhuma dúvida de que quem está errado é quem não entende. Quem não entendeu meu trabalho é que está errado, ou por falta de informação ou porque não tem um alcance para chegar lá.

O senhor passou a não ligar mais para o público?

Não, o público para mim é a coisa mais importante. Faço até uma autocrítica, talvez eu devesse ser mais concessivo em meu trabalho para chegar um pouco mais ao ouvido das pessoas. Mas é preciso ter caminhos para chegar ao público.

O senhor imaginou quão forte seria a cena de um violão sendo quebrado?

Sim, era como se eu dissesse "chega, minha carreira acaba aqui, não quero saber de mais nada, toma um brinde pra vocês". Depois desse dia, ganhei violão adoidado (risos). Hoje isso para mim é uma piada, uma coisa engraçada, mas entendo que teve uma razão. Não tenho nenhum sentimento de culpa com relação a isso. As rádios pararam de me tocar, mas não por conta do violão, e sim de meu trabalho político. Eu fui proibido de ser tocado no rádio e na televisão.

E isso ainda pesa, mesmo depois de tanto tempo?

Eu percebo isso. A ausência da mídia faz supor ao leigo que você não está com nada, mas não é bem assim. Há muitos artistas bons, fantásticos, da nova geração que não são conhecidos. Hoje a juventude faz uma música mais elaborada do que a que nós fazíamos, uns cantam na rua, em botecos muito pequenos, e com muita genialidade. O momento está bom para reunir essa turma e formar um novo movimento de música.

E o senhor se identifica com esse pessoal?

Há uma espécie de estirpe que surgiu entre a Bossa Nova e a Tropicália que eu chamo de "estirpe eliminada". A Tropicália é um marco na chegada de um pessoal já preparado para o sucesso industrialmente, mas há os que ficaram entre a Bossa Nova e a Tropicália, artistas como eu, Geraldo Vandré, Téo de Barros, De Kalafe, Tuca, Marília Medaglia, MPB4, que puderam se manter um pouco melhor. Nós fomos muito censurados porque fizemos uma música mais política, mas quando chegou o AI-5, em 1968, a censura caiu de pau mesmo com relação a essa estirpe.

O que é pior, a vaia ou a indiferença?

A vaia, pelo menos glorifica o cara, de uma maneira ou de outra. Mas a indiferença é terrível.

O senhor fala muito de música brasileira, mas sua postura no palco foi bem rock and roll. Chegou a ver um shows de Jimi Hendrix antes de quebrar o violão?

Hendrix copiou isso de mim. Na semana seguinte em que quebrei meu violão, ele quebrou a guitarra (risos). Não fui eu quem imitou o Jimi Hendrix, foi ele quem me imitou.

O que faria o senhor quebrar um violão hoje?

Ah, hoje nada. Hoje talvez eu quebrasse mesmo um cavaquinho (risos).

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