A borboleta louca

É melhor caminhar por este bairro antes das 6 da manhã, quando a poluição é mínima, e o barulho de veículos, suportável. Mas sempre aparece um motoqueiro em polvorosa no fim da noite, a máquina cruza velozmente o sinal vermelho e voa não sei para onde.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

A cidade ainda está escura, e as padarias, fechadas. Na calçada do bar da esquina há copos de plástico e sacos de lixo. Passo perto de pessoas conhecidas: um sem-teto deitado na grama da pracinha, um mendigo na entrada de uma estação de metrô, três empregados de uma padaria que frequento, eles me dão bom-dia e nós quatro nos assustamos com os latidos de um pit bull.

Esse bicho mal-humorado e feroz ainda não se acostumou com o nosso cheiro, ele late com sons de barítono bêbado e se ergue como se fosse o guardião do bairro e nos encara com um olhar nada dócil, como se nos advertisse: afastem-se daqui ou serão devorados. A parte traseira do carro que ele protege ultrapassa o limite da casa e invade a calçada, de modo que a mãe que empurra o carrinho de bebê tem de sair da calçada esburacada e andar na rua também esburacada.

Seis quarteirões adiante, a quantidade de carros e ônibus se multiplica, o cheiro do ar já é outro, começa a amanhecer. Os ônibus são dormitórios ambulantes, os passageiros acordados, sérios enfadados, olham para as fachadas feias ou para alguma coisa que só eles podem ver ou imaginar.

No caminho de volta, sei que vou encontrá-la, há anos vejo a mulher na mesma posição: o rosto e os braços erguidos para o céu, o cabelo loiro e ondulado caindo até a cintura como se fosse uma manta dourada.

Quando saí para caminhar pela primeira vez, lembro que me desviei dessa mulher estranha, depois me acostumei com sua pose, com seus gestos, ela sempre usava um pijama de flanela e pantufas puídas, parecia uma atriz sem plateia, uma atriz que encena uma peça com os mesmos gestos e figurino num mesmo cenário, mas que muda o texto em cada encenação. Enchi um caderno com palavras que ela disse nesse tempo em que fui um de seus poucos espectadores, pedaços de frases que eu ouvia enquanto passava a dois metros da manta amarela, às vezes observando o que seria o jardim da casa da atriz: um matagal denso, escuro, cheio de árvores frutíferas, que me fazia recordar os quintais da minha infância. As últimas palavras que gravei e anotei foram "As asas da borboleta louca vão provocar um furacão, vocês não acreditam?" e "Deus, não merecemos tanto escárnio, tanto cinismo..."

Na semana passada não ouvi mais a voz dessa mulher. Fui tomado por uma tristeza enorme quando vi uma bananeira solitária onde antes havia um matagal. Parei diante da casa - a última casa antiga do meu bairro -, e li no alto da fachada o ano em que foi construída: 1889. A janela da sala estava escancarada, pude ver uma peruca loira cobrindo a tela de um velho aparelho de TV e, sobre um sofá também velho, o pijama de flanela.

Se os herdeiros ao menos tivessem conservado as árvores do quintal, pensei. Mas nem isso. Agora as caminhadas serão tediosas sem a presença da atriz que dizia coisas tão insensatas e talvez verdadeiras.

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