Andrea Bocelli, apesar de sempre apontado como um cantor crossover, que faz a ponte entre o erudito e o popular, faz questão de separar as duas correntes da música que canta. Para o toscano que já vendeu mais de 70 milhões de discos em todo o mundo e foi duramente avaliado pela crítica especializada - ele não possui potência vocal para sustentar uma apresentação lírica sem o auxílio de microfones, dizem do detratores -, o pop e o clássico têm suas particularidades. "Pode parecer contraditório, mas sempre procuro separar bem os dois. Proponho temas líricos em espaços que se dedicam ao pop, mas é para dividir com o público o máximo possível do que gosto", disse o tenor ao Estado.

09 de dezembro de 2012 | 02h10

É esta ponte, ainda que sutil, que Bocelli traz a São Paulo na quinta, no Jockey Club, no único show que fará em sua terceira passagem pelo País. Traz, novamente, um repertório híbrido, que mistura, desta vez, trechos de seu último trabalho lírico, a gravação da ópera Roméo et Juliette, de Charles Gounod, grandes canções da música napolitana, além de clássicos de seu repertório, como Ave Maria, Nessun Dorma e Con te Partirò, além de um dueto com a cantora Sandy, com quem vai dividir os vocais em Vivo por Ela.

O tenor, que prepara novo álbum pop, Passione, com lançamento em fevereiro, vai ser acompanhado do coro e da Orquestra Filarmônica de São Paulo, com regência do maestro Eugene Kohn, participação especial do quarteto DIV4s e da soprano cubana Maria Aleida. Sobre suas paixões, o público e a música brasileira, Bocelli respondeu, por e-mail, as seguintes perguntas.

É a sua terceira vez no Brasil. O que você preparou desta vez?

Fizemos o possível para que seja uma noite inesquecível, à altura do público. A primeira parte é lindamente lírica, com páginas extraídas do grande repertório operístico do 'ottocento' italiano e algumas incursões no francês (momentos de Roméo et Juliette), seguem-se grandes composições que entraram para a história, incluindo célebres melodias napolitanas, até chegar a um seguimento mais pop. E, já que estamos às vésperas do santo Natal, não vai faltar uma comemoração musical.

Você dividirá o palco com Sandy. Tem vontade de cantar, e gravar, com outros brasileiros?

Minha relação com os músicos brasileiros espelha pontualmente a fertilidade musical da sua terra. As experiências que tive foram sempre muito positivas. Certamente vão continuar. Quanto ao repertório brasileiro, posso dizer que seja em São Paulo, seja no próximo álbum pop, algum testemunho sonoro desta minha conexão forte com o Brasil poderá ser ouvido.

Você já afirmou outras vezes que ama a música brasileira. Que influência músicos como Tom Jobim, que você diz adorar, tiveram sobre a sua formação?

A influência dos ritmos latinos para a evolução da música do século 20 é importante e transversal, pois eles inspiraram o pop, o jazz e também a música não comercial. Creio que seja impossível prescindir da experiência de músicos como Jobim e tantos outros. Se o Maestro (como vocês chamam o grande pai da bossa nova) escutava na infância a música de sua terra, mas também Bach e Debussy, eu, na mesma idade, quando era estudante universitário, nutria minha paixão musical tocando Bach no piano, cantando as árias do Melodramma, mas propondo também as esplêndidas canções de Tom Jobim.

Tocava Jobim?

Claro! Quando, durante seis dias por semana, eu tocava no piano-bar da Toscana, não havia uma noite sequer que alguém não me pedia para tocar Garota de Ipanema ou Corcovado. Não sei dizer a dimensão exata da influência da música brasileira sobre meu trabalho, mas posso afirmar que penetrou nas minhas fibras, na minha bagagem cultural, porque eu a amei, estudei, cantei, vivi intensamente. Seus ritmos fazem parte da trilha sonora da minha vida.

Você transita pela música pop e pela lírica. Há uma 'melhor'?

Não. Há música bela e música feia em cada um dos gêneros. É fácil distinguir. A diferença fundamental está na consequência que gera. A música boa, e bela, é aquela que, mesmo sendo mais difícil de se aproximar, que é cansativa no primeiro momento, em uma segunda escutada, pouco a pouco entra dentro da gente e nos ajuda a crescer, desenvolver espiritualmente, fazendo com que a gente se sinta melhor. Tinha razão o político e intelectual da Roma antiga Catone Uticense, que queria que os soldados fossem proibidos de escutar música. A seu ver, não correriam mais o risco de terem seus ânimos suavizados e se tornarem incapazes de guerrear.

E sua relação com o público?

A minha vida é feita de encontros: a profissão de concertista faz com que eu tenha de me relacionar sempre com tanta gente, a um ritmo frenético que, infelizmente, não me deixa tempo para fixar na memória, na medida em que eu gostaria, um momento particularmente sugestivo e emocionante, um contato particularmente intenso. Mas posso dizer que minhas viagens ao Brasil são exceção. Conservo muitas lembranças vívidas dos concertos, do público, e também das tantas pessoas que conheci. Ocorreu-me várias vezes de, conversando com minha mulher Veronica, relembrar com gratidão das manifestações de afeto que nos dão na América Latina. Um exemplo foi Belo Horizonte, onde milhares de pessoas acamparam, muitas horas antes do início do show. Foi como um abraço que até hoje carrego no peito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.