A boa maré de Lia Rodrigues

Companhia que trabalha em favela do Rio mostra dois espetáculos em São Paulo

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2012 | 03h06

Uma oportunidade para não se perder: a Lia Rodrigues Companhia de Danças mostra, hoje e amanhã no Sesc Belenzinho, Aquilo de Que Somos Feitos (2000), e Piracema (2011), no sábado e domingo.

Embora seja associada ao Rio de Janeiro, onde vive e trabalha, Lia Rodrigues nasceu e se formou na cidade de São Paulo, com a professora Nice Leite, na Escola de Bailados. Criou sua companhia em 1990, já no Rio e, até 2003, como tantas outras, não tinha sede fixa. A escolha do lugar onde se fixar foi determinante na sua trajetória porque passou a ressoar na sua criação artística.

Foi graças ao convite de Silvia Soter, sua dramaturgista, que iniciou uma parceria com a Redes de Desenvolvimento da Maré, e dela resultou a mudança da cia. para o Morro do Timbau, uma das 16 favelas que compõem o Complexo da Maré, bairro da zona norte do Rio com cerca de 130 mil habitantes. O fato de ter começado a conviver diariamente com o ambiente da favela acabou por impactar nas obras que foram surgindo. Pororoca (2009), por exemplo, revela, na forma de dança, a violência do encontro com uma realidade muito distinta daquela da zona sul do Rio, na qual o grupo, até então, existia.

Dois anos antes, em 2007, a cia. havia se transferido para o Centro de Artes da Maré, em outra das favelas, a Nova Holanda. É neste espaço que, também em 2009, começou o projeto "Dança Para Todos": aulas gratuitas de dança contemporânea, consciência corporal e dança criativa para crianças e jovens do entorno. Em outubro de 2011, esse projeto se transformou na Escola Livre de Dança da Maré, que atende cerca de 200 alunos. Deles, 15 jovens frequentam um curso profissionalizante, voltado para a pesquisa de material criativo, cinco vezes por semana, 4 horas por dia.

A Lia Rodrigues Companhia de Danças representa um segmento muito importante na dança brasileira, na medida em que resiste no formato de uma companhia que, com o seu repertório, vem formando bailarinos e público. No Brasil, dança menos do que deveria. Piracema, por exemplo, foi visto primeiro em Paris e na Bélgica. Nasceu de 11 solos criados pelo elenco, que é formado por Amália Lima, Ana Paula Kamozaki, Lidia Laranjeira, Calixto Neto, Thais Galliac, Jamil Cardoso, Leonardo Nunes, Gabriele Nascimento, Paula de Paula, Bruna Thimotheo e Francisco Cavalcanti. Todos os 11 são mostrados ao mesmo tempo, revelando algo muito precioso: que é possível coabitar sem coincidir.

"Como podemos nos relacionar com o que é diferente? Meu trabalho se ocupa disso" diz ela, em entrevista telefônica ao Estado. Em Piracema, a cia. nos fala da necessidade de não sucumbir ao cansaço que o ir contra a correnteza produz. Tal como os cardumes que nadam rio acima, em direção à nascente, debatendo-se e produzindo um rumor característico, buscando as águas mais limpas e mais tranquilas das cabeceiras dos rios para lá desovarem a sua continuidade, transformando a exaustão do seu esforço em um recomeçar da vida. "Nesse percurso, aprendemos a estar próximos, apesar de sozinhos", explica. Em tupi-guarani, pira significa peixe, e cema quer dizer agitação.

No texto que publicou no 7X7 (www.idanca.net), um novo espaço inventado pela coreógrafa Sheila Ribeiro, no qual artistas escrevem sobre artistas, o coreógrafo Wagner Schwartz comentou Piracema: "A peça, revisitando o conceito de 'viver em conjunto', criado por Roland Barthes, inscreve um espaço de narração individual específica. Piracema é um manifesto contra a uniformização."

Quando Piracema é apresentada ao lado de Aquilo de Que Somos Feitos, que se mantém viva e importante ao longo de seus 12 anos de contínuas apresentações, passa a testemunhar uma sobrevivência possível nesses tempos de contínua produção de obsolescência, quando tudo nasce para ser logo descartado. Perceber a necessidade deste tipo de resistência talvez já nos inicie na direção contrária que pode ser transformada em caminho.

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