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A boa e velha expectativa. Vã?

Obras-primas, sim, mas a tendência dominante é o recuo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Hoje é dia de Oscar - de ver Colin Firth e Natalie Portman receberem as estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O troféu mais cobiçado do mundo - representa um acréscimo de salário na indústria, não apenas prestígio - possui vários indicadores, pois é sempre precedido pelas premiações das Guilds. As ligas, ou sindicatos, de atores, diretores e roteiristas já apontaram as tendências deste ano. Quando os críticos fizeram suas premiações, no fim do ano, A Rede Social, de David Fincher, parecia o favorito para a 83.ª edição do prêmio. As Guilds desviaram o rumo e fizeram crescer a candidatura de O Discurso do Rei, de Tom Hooper.

Teremos a confirmação das vitórias anunciadas na noite de hoje? Faltam poucas horas para acabar o suspense, mas sempre existe a possibilidade de uma surpresa. O Oscar no ano passado parecia destinado a Avatar, de James Cameron, que bateu todos os recordes da história do cinema, mas terminou entregue à ex-mulher do cineasta, Kathryn Bigelow, por um filme tão pequeno, Guerra ao Terror, que nem teve lançamento nacional, na "América", mal chegando às cidades interioranas, exceto em DVD. Tom Hooper deve vencer hoje - os sindicatos dos diretores e dos atores deram seus prêmios principais a O Discurso -, mas persiste a expectativa de que haja uma divisão e A Rede Social vença como melhor filme.

Vai ser difícil - David Fincher tem a fama de intratável, num sentido diferente de James Cameron. Este é o rei do mundo, por seus orçamentos e faturamentos bilionários, mas Cameron não deixa de fazer filmes de diversão, como reza a cartilha da indústria. Fincher briga dentro do cinemão para fazer, como quer, filmes de autor, com responsabilidade social. Vai nisso uma diferença e, no Festival de Berlim, a revista The Hollywood Reporter, que representa a tendência, digamos, progressista da indústria, dedicou sua capa a Fincher, com uma longa entrevista do diretor e defendendo o Oscar para ele.

Se dependesse de Cahiers du Cinéma - uma das, ou a Bíblia do cinema de arte no mundo -, Darren Aronofsky somaria ao prêmio para Natalie Portman o de melhor diretor. A revista dedica a capa de sua edição do mês a Cisne Negro, apontando Aronofsky como chefe de fila da nova Hollywood. Talvez nada disso influencie as decisões e prevaleça o esperado. Além de A Rede Social, o outro grande filme hollywoodiano do ano foi A Origem, de Christopher Nolan, mas ele nem sequer foi indicado para melhor diretor. São os paradoxos da indústria. Hollywood privilegia os efeitos especiais, que os críticos, um tanto levianamente, generalizam como cinema sem cérebro. Para mostrar responsabilidade, a Academia, prefere os filmes sérios e O Discurso do Rei tem a cara da seriedade do cinemão.

Um rei inglês, que não quer ser rei e ainda tem problemas de dicção, precisa superar duplamente seus limites - assumindo-se como encarnação da Inglaterra durante um período de crise e discursando para a nação o que ela precisa ouvir, da forma cristalina como gostaria de ouvir. Diante de O Discurso do Rei, qualquer cinéfilo vai se perguntar - mas é só isso? É, mas basta para a Academia e seus votantes, que não conseguem entender que um filme como A Origem toca a própria essência de indagação do mecanismo de sonhar acordado sobre o qual se assenta essa indústria.

A Rede Social é o filme mais subversivo a sair da indústria nos últimos anos. Ou você viu outro a começar com um diálogo daqueles, filmado daquele jeito? Não só o começo. A Rede Social inaugura um novo modelo de cinebiografia, assumidamente contra o biografado. Nem Orson Welles ousou tanto, já que William Randolph Hearst, afinal, ganhou um nome de fantasia em Cidadão Kane, de 1941. Uma coisa é certa - se Toy Story 3 não ganhar como melhor animação será preciso encaminhar uma representação contra a Academia, no Procom de lá.

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