A bíblia aberta do decadentismo

Às Avessas, clássico relançado de Joris-Karl Huysmans, discute a representação na literatura e nas artes em geral

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

De modo geral, tudo o que se sabe sobre o escritor flamengo de expressão francesa Joris-Karl Huysmans (1848-1907) é que ele rompe espetacularmente com o naturalismo de Zola, em 1884, depois de ter estado intimamente associado à proclamação e à defesa dessa estética, no fim do decênio de 1870, e que o pivô da ruptura é Às Avessas, cuja publicação data daquele mesmo ano, e que logo viria a tornar-se a bíblia, o breviário, o auge do decadentismo.

Por outro lado, tudo o que se sabe sobre o decadentismo é que, vindo na esteira dos refinamentos nervosos de Baudelaire - que detestava a natureza e a naturalidade e lhes preferia os artifícios, a começar pelos versos perfeitos - e recebendo reforços do horror ao burguês de Flaubert e da atmosfera enigmática de Mallarmé, é um movimento finissecular animado por alguns dândis tardios, desfalecentes de civilização.

É a propósito desse clima espiritual, aliás, que tanto se lembra a tartaruga de Às Avessas, em cujo casco o narrador mandou incrustar uma pedra preciosa, que só poderia matá-la. De fato, a morbidez é aqui inseparável da festa dos sentidos, e o correlato formal dessa duplicidade é uma prosa poética também indecisa entre a ficção e o ensaio, que antecipa toda a rede de antirromances por vir, a começar pelo de Proust, e a terminar pelo de Robbe-Grillet.

Todos esses são fios de uma meada que o tradutor José Paulo Paes (1926-1998) vai desenrolando com requintes de comentário crítico, na apresentação que escreveu, em 1987, para o texto que acabava de verter, e que é mantida pelo organizador da ótima coleção Penguin brasileira em que se republica, agora, este grande clássico moderno. Providência tão mais acertada - diga-se - quanto o assunto pede, mesmo, o conhecimento de causa de alguém com a mão na massa, isto é, os préstimos de um criador. Ainda mais aqui, no país dos críticos marxistas indignados com modernidades e Mallarmé. E é por isso também que só se pode comemorar a abundância de paratextos críticos desta reedição, que traz ainda um segundo comentário magistral, do oxfordiano Patrick Mcguinness, especialista no simbolismo francês e suas declinações decadentistas, e um "Prefácio escrito vinte anos depois do romance", do próprio Huysmans.

Aproveite-se então o ensejo desta recuperação da mais cultuada das literaturas agonísticas para notar o que se conhece menos. A saber, que, não obstante sua excentricidade e insolência legendárias - aliás, inspiradoras do homossexual acintoso que é o barão de Charlus de Proust, entre outros tantos desencadeamentos intertextuais ou, como diria Gérard Genette, "palimpsestuais" e "palimpsestuosos" -, a personagem única de Às Avessas, o deliquescente Des Esseintes, não se limita a portar a tocha dos contranaturalistas. Nem a melhor briga de seu inventor é com Zola.

De fato, escavando um pouco mais, o pesquisador em história da literatura francesa moderna poderá remover o preconceito vigente sobre o autor de Os Rougon-Macquart, e ato contínuo, repensar a batida em retirada de Huysmans. Ela é muito mais complicada que uma simples rebelião. Dado que Zola não foi o pequeno realista que se pensa. Na verdade, em jovem, foi não apenas aquele jornalista impetuoso que acusou os acusadores de Dreyfus, mas um corajoso novo crítico. Nessa condição, e é ele quem vai viabilizar os impressionistas, que lhe devem poder existir, na contramão dos salões de Belas-Artes, no fim do século 19. Mas dado também que isso não pode não ter consequências sobre a sua trajetória imediatamente posterior. Assim, todo o programa do "romance experimental", tal como o mestre o apresenta, desde 1968, no prefácio a Thérèse Raquin, nada mais é que a reconfirmação das teses de Monet e seus companheiros a respeito da necessidade de as belas-artes irem às coisas mesmas. O que nos obriga a reconhecer que um quadro zoliano é, no mínimo, tão matizado quanto uma paisagem dos pintores da luz natural, que trabalham a céu aberto. E ainda, que o naturalismo literário, cuja mais importante propositura é francesa e vem da parceria de Zola com Huysmans e Guy de Maupassant, é uma reflexão sobre a visibilidade, ou sobre as relações entre o olho e o espírito.

Munido assim dessas informações menos correntes, esse mesmo estudioso poderá voltar com novas luzes a Huysmans e avançar para além do anedotário. Tendo escapado da leitura conteudista e literal do "à rebours", descobriu que o ponto de vista às avessas, ou na contramão de tudo, não enterra vitoriosamente uma estética, mas continua uma interrogação.

Pois, na verdade, o que este sofisticado romance sobre a literatura e as artes mais quer é continuar trabalhando, por outro lado, a questão da representação. É por isso que Huysmans faz Des Esseintes dizer, no capítulo 14, que encerra toda uma aula sobre mestres e estilos: "Na minha biblioteca profana e laica, os livros essenciais atropelam-se uns aos outros, escorando-se mutuamente".

LEDA TENORIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

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