"A Besta na Lua" faz arte da simplicidade

Há certas coisas que o teatro contemporâneo deixou de fazer porque, em parte, se rendeu à supremacia da concorrência. Deixou de lado, por exemplo, a ambição de iludir reproduzindo a aparência sensível da vida cotidiana. Abandonou os enredos organizados sobre o esquema de causas e conseqüências, que caminhavam disciplinadamente em direção ao desenlace apaziguador. Tornou-se, tanto por vocação quanto por necessidade, o lugar da ambigüidade e da experiência radical.Conservou as mãos e perdeu alguns anéis que, de vez em quando, um dramaturgo norte-americano recupera do oceano da cultura de massas. A Besta na Lua, peça de Richard Kalinoski, é uma peça obediente ao realismo psicológico e à tradição da narrativa aristotélica, recursos hoje mais freqüentes no cinema comercial do que na literatura dramática.A história é ordenada à moda antiga: tem começo, meio e fim e parece-nos, senão verdadeira, provável. Fortalece o nosso otimismo vacilante (o otimismo da cultura norte-americana é sempre mais robusto) porque fecha feridas sem esconder as cicatrizes. E oferece, ainda, a satisfação perversa de podermos imaginar que, com esses elementos, o cinema teria feito um mingau sentimentalóide, ensopado de lágrimas e atrocidades explícitas para, ao final, sepultar essas proezas sob uma solução cosmética. Na química da arte, ao que parece, o que importa é a medida.A virtude maior da peça de Kalinoski está no rigor com que se atém à caracterização psicológica, contornando com delicadeza a evidência patética dos acontecimentos históricos que moldaram a vida des seus personagens. Seu tema é a cura e os incidentes dramáticos devem convergir para esse alvo, respeitando os meandros da vida inconsciente, o tempo lento da cicatrização emocional, o modo gradual como algumas pessoas concebem estratégias para superar traumas.Tal como na tragédia, as coisas terríveis aconteceram fora de cena e os personagens centrais são sobreviventes do massacre do povo armênio pelos turcos durante a Primeira Grande Guerra. Sem querer nos advertir uma vez mais sobre os horrores da "limpeza étnica", a peça contempla o modo como duas criaturas feridas pelo genocídio se adaptam para usufruir a vida, único dom que as famílias exterminadas no país da origem puderam legar. Tanto o homem quanto a mulher estão vivos porque alguém se sacrificou por eles. Cada um deles, no entanto, tem uma perspectiva diferente sobre a melhor forma de reconstruir a vida. Dessas duas perspectivas opostas surge o conflito que move a narrativa.Outro trunfo dramático eficaz resulta também da obediência à convenção realista. Pobres e ignorantes, vivendo em uma comunidade interiorana, o casal de armênios não tem repertório cultural para recorrer a meios terapêuticos sofisticados. Marido e mulher precisam resolver com os instrumentos da intuição, da vontade e do afeto os complexos nós simbólicos com que revestiram a experiência do desenraizamento. A intromissão de um narrador supre as informações circunstanciais, mas não quebra a veracidade desse diálogo entre duas pessoas incapazes de manejar com destreza a linguagem verbal.Dirigido por Maria Thaís, o espetáculo tem, em quase todos os momentos, a virtude da simplicidade. Chegar à simplicidade no teatro é uma batalha árdua, que exige do encenador desprendimento para renunciar à exaltação emocional, à sedução dos efeitos visuais, à ocupação engenhosa do espaço da cena e aos mil e um enfeites sedutores. Nesse espetáculo estão em primeiro plano os personagens e a evolução da narrativa. Partindo dessa perspectiva, a direção se ocupa em delimitar e manter sob controle o tempo e o ritmo de cada cena, em definir com sutileza a evolução gradual dos personagens para que se tornem perceptíveis as alterações qualitativas dos sentimentos. São pequenos movimentos, tonalidades de voz, detalhes de postura que vão, aos poucos, construindo o movimento interior, o que acontece sob os fatos e sob consciência dos protagonistas.Sendo uma construção que tem um ponto de fuga, a peça realista exige um acordo estilístico entre os intérpretes e qualquer divergência compromete a credibilidade da narrativa. O trabalho homogêneo de um elenco muito bom, que sabe o que está fazendo, é atento ao contracenar e sugere em vez de tornar evidentes os contornos exteriores das ações e dos personagens, fazem de A Besta na Lua uma experiência incomum na vida dos espectadores de hoje.Exatamente porque não procuram nos seduzir, porque parecem inteiramente absorvidos na narrativa e nos personagens, os intérpretes diluem a separação entre o palco e a platéia. Como tantas outras criaturas que só vemos de relance, os personagens parecem estar vivendo em surdina, trocando confidências e fazendo imaginar que nenhuma experiência humana é ordinária, que tudo o que se entrevê tem importância. Pode-se admirar, depois do espetáculo, a excepcional mescla de graça infantil e maturidade de Beatriz Sayad, uma jovem atriz em quem não se nota sequer um traço de artifício. Mas são subprodutos da memória porque o que realmente nos arrasta para o centro da narrativa é o desempenho do conjunto.A Besta na Lua - De Richard Kalinoski. Direção de Maria Thaís. Duração de 90 min. Sábado, às 21 h; dom. e fer. às 20 h. R$ 15. Sesc Belenzinho. Av. Álvaro Ramos, 915, tel.: 6605-8143. Até 22/9.

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