A bênção, senhora herrera

Como foi a semana no País da estilista venezuelana mais internacional do mundo

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Carolina Herrera está sempre impecável. Seu cabelo, sempre perfeito. Nunca fala de política, só de moda. E jamais perde a fleuma. Com um prólogo assim, acompanhar a "semana de Herrera pelo Brasil" - que incluía sua primeira passagem pelo Rio, a visita à sua primeira loja no País, no Shopping Cidade Jardim, e "iluminar o Cristo Redentor de rosa" como parte do Outubro Rosa (movimento mundial de prevenção ao câncer de mama) - poderia parecer, no mínimo, intimidador. No máximo, desafiador. Por fim, encantador.

A senhora Carolina, como é chamada, veio com a filha Adriana Carolina, ou Carolina Junior. Da agenda faziam parte ainda entrevistas, lançamento de novo perfume, almoços de negócios e uma festa em sua homenagem na mansão da carioca Lenny Niemeyer.

No meio do caminho havia o Cristo. E, lá em cima, um vento para desarrumar seu cabelo. "Claro que tenho meus bad hair days (dia do cabelo ruim). Ontem o vento estava tão forte que meu cabelo ficou todo arrepiado. Minha filha adorou e fez piadas o tempo todo. O importante é não perder a elegância", brincou a fleumática estilista em conversa na sua suíte do Copacabana Palace com vista para o mar.

Fleuma, pela definição, é o caráter de pessoa calma, impassível, fria. Quem tem fleuma não se abala nunca. Não foi a estilista fleumática que encheu os olhos de lágrimas ao contar como foi rezar o Pai Nosso aos pés do Cristo numa noite de terça. "Foi tão emocionante. É forte a imagem Dele, de braços abertos nos protegendo. Quando subimos no pedestal e rezamos pelas vitoriosas que lutam contra o câncer, senti um arrepio imenso. Quando a prece acabou, e a dance music voltou a tocar, as pessoas começaram a dançar e cantar. Fiquei ali sem entender nada, em transe."

Carolina Herrera em transe, de cabelos desarrumados e de olhos cheios d"água? A imagem de mrs. Herrera entrando na passarela da New York Fashion Week, fleumática em sua indefectível camisa engomada branca, não casava com a cena. Muito menos os dois dedos roxos da mão que ela gesticulava ao dizer: "Ai, ai, ai, que emoción!"

O que aconteceu com os dedos? "Niña, quebrei. Fechei a porta nos dedos na manhã do meu último desfile em NY. Como não cuidei na hora - tinha tanto trabalho e dezenas de entrevistas a dar -, só fui tratar no fim do dia. Já era tarde. Passei dias com os dedos latejando. Mas não parei."

A fleuma estava de volta. A repórter do Estado, que já enfrentou este drama, não resistiu: "Não teve vontade de chorar de dor?" A mulher latina estava de volta: "Ai, claro! Quando o dia acabou, desabei, mas na hora não. Minha equipe precisava de mim."

Quem precisa de Carolina são as mulheres, sobretudo as com câncer. Entre as atividades que a trouxeram ao País, está o apoio oficial à luta contra o Câncer de Mama. Além de madrinha do Outubro Rosa, é porta-voz da Iniciativa Ser (que apoia as mulheres com câncer de mama), e inclui nas caixas de seus perfumes (é líder de vendas do segmento no País) folheto sobre o autoexame. "Decidi fazer isso porque é alto o número de mulheres que descobrem o câncer em estágio já avançado, porque não têm o hábito de se autoexaminarem."

E a vaidade? A moda não é importante para a saúde? "Muito. Moda não é fútil, é como nos traduzimos ao mundo em cada gesto. E, por mais óbvio que seja, é parte de nossa identidade", respondeu a estilista que movimenta milhões e, ainda assim, encontra tempo para dar consultoria de estilo para mulheres em tratamento. "Quando o tratamento começa, quando se sentem inchadas e o cabelo começa a cair por causa da quimioterapia, dou dicas de como é possível ficar bonita usando uma peruca, um lenço na cabeça, uma echarpe. Faz parte da cura. Mulher precisa se sentir bonita para se sentir bem."

E como se sente com o gesto do cabeleireiro Celso Kamura levar uma foto sua para inspirar a presidenciável Dilma Rousseff a mudar o estilo de cabelo? "Honrada. Se ela está feliz com o novo visual é o que importa. Sei que ela também lutou contra o câncer, ainda que de outro tipo, e que ela vai entender o que estou falando", comentou e em seguida perguntou: "Ela é a continuação de Lula, não? Ele fez coisas boas para a economia brasileira. Desejo que, seja quem for o próximo presidente, o Brasil continue crescendo. Espero que a democracia brasileira ajude toda a América do Sul a ser mais democrática, incluindo a Venezuela que, bem, você sabe... não falo sobre política. Só sobre moda."

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