A bênção, boa música brasileira

Combinando ousadia e respeito, big band faz um dos melhores resgates da obra de Moacir Santos

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

 

Personalidade. Integrantes do grupo conseguiram o que parecia improvável, melhorar composições como 'Maracatucutê' e 'Bluishmen', gravadas anteriormente com maestria em 'Ouro Negro'

 

 

 

 

Era 2002 quando o saxofonista Daniel Nogueira e o contrabaixista Vinicius Pereira voltavam dos ensaios do Batuntã - grupo guiado pela exploração de ritmos brasileiros por meio de instrumentos percussivos - e o som mais ouvido no carro de Daniel saía do disco duplo Ouro Negro, em homenagem a Moacir Santos. Ocupados com projetos paralelos, os dois palmilhavam ali um caminho sem volta na obra do maestro e compositor.

 

Três anos depois, em novembro de 2005, após mergulhar de cabeça no estudo do saxofone, Daniel propôs a Vinicius montar um grupo para tocar as composições de Moacir. Depois de acionar amigos músicos, surgia o Projeto Coisa Fina. Ontem, com a formação atual de 13 integrantes (oito sopros mais piano, contrabaixo acústico, guitarra, bateria e percussão), a big band faria apresentação de pré-lançamento do seu primeiro disco no Savassi Festival, em Minas. Em São Paulo, a data marcada é 16 de agosto, no Teatro da Vila, com lançamento oficial no dia 29, no Museu da Casa Brasileira.

 

Depois de Choros e Alegria (2005), capitaneado por Mário Adnet e Zé Nogueira, e de As Canções de Moacir Santos (2007), na afinadíssima voz de Muiza Adnet (com parcerias lapidares do maestro com Vinicius de Moraes, como Se Você Disser Que Sim e A Santinha Lá da Serra, com participação de Milton Nascimento e do próprio Moacir), a obra do compositor pernambucano havia sido visitada com justas, mas apenas breves pinceladas. Como no disco Brasileiro Saxofone (2009), de Nailor Proveta.

 

Agora, um álbum voltado em sua maioria às composições revolucionárias de Moacir volta a pulular no mercado. Enquanto não chega às prateleiras, o disco pode ser ouvido gratuitamente, na íntegra, no site da banda (www.projetocoisafina.com.br). "Não sei se o Moacir vai ter ainda o reconhecimento que ele merece, mas isso tem mudado. O Ouro Negro e o Choros e Alegria foram importantes para divulgar a obra dele. Hoje já dá pra ver grupos como o nosso e outros tocando a obra do Moacir", diz Daniel. "Sem contar os songbooks dele que foram lançados. O que não rolava no passado, agora é possível. As pessoas podem ter acesso às partituras e tocar", completa Vinicius.

 

Das nove faixas do CD de estreia do grupo, todas instrumentais, cinco são de Moacir. As outras, três belos temas com o perfume da influência do maestro (Dia Seguinte, de Vinicius Pereira, Ponto de Partida, de Anderson Quevedo, ambos integrantes do grupo, e Pente Fino, de Vitor Cáffaro), somados à Quintessência, de outro gigante pouco reconhecido, J.T. Meirelles.

 

Composições pra lá de respeitáveis, mas os petardos fervilham mesmo como sopa a 100° com os temas de Moacir. E aqui enalteçam-se a coragem e a competência do Projeto Coisa Fina em encarar a obra do compositor. Não é qualquer um que consegue bancar o veneno das melodias, a malícia rítmica e as originais aberturas harmônicas do maestro e conferir-lhes uma cara autêntica. Combinando doses exatas de respeito e ousadia, o grupo peneirou temas menos executados, como Adriana, gravado originalmente em 1979, no disco Opus 3 nº1, de Moacir, e Stanats, homenagem a Stan Getz.

 

Os destaques ficam por conta de Coisa nº 2, primeira composição de Moacir tocada pela banda, Maracatucutê, que conseguiu o que parecia improvável: ficar ainda melhor do que a versão registrada em Ouro Negro, graças à quentura da pegada da percussão de Matheus Prado e da bateria de Mauricio Caetano, e Bluishmen, com introdução sublime no entrelaçar do piano de Fábio Leandro, do flugelhorn de Amílcar Rodrigues e do contrabaixo acústico de Vinicius Pereira, pinçado do arranjo original, na gravação em The Maestro.

 

Um trabalho louvável como este corre o risco de ficar ancorado apenas em São Paulo. O Projeto Coisa Fina busca ainda patrocínio e incentivo que possam viabilizar turnês. "Sair com 13 músicos mais equipe técnica, bancando do próprio bolso é inviável. Manter uma big band, com ensaios, gravações e shows é difícil. Não é mais como antes, quando as rádios tinham suas próprias orquestras com músicos contratados", completa Daniel.

PRÓXIMOS LANÇAMENTOS DE COLETIVO

Depois do disco Homenagem ao Maestro Moacir Santos e do álbum novo do Meretrio, outros grupos como o Projeto Coisa Fina que integram o Movimento Elefantes, coletivo formado por dez big bands, preparam seus lançamentos ainda para este ano. Quem também lançou álbum recentemente pelo selo foi a banda Jazzco, grupo mais antigo do movimento, com 36 anos de estrada, liderado pelo baixista e compositor Amador Bueno. Fevereiro tem oito faixas bem arranjadas, brincando com diversos gêneros: Jogando Brasa, frevo de Petrolino Malaquias, Sambalombra, de Amador Bueno, Na Capital, de Rubinho Antunes, Novo Brasileiro, do americano Todd Murphy, e quatro temas de Milton Belmudes: Fevereiro Campo de Trigo, Três Jeitos e Cogumelo Tropical. Com apresentações do coletivo marcadas para o Museu da Casa Brasileira, no projeto Música no Museu, o Movimento Elefantes tem mais três lançamentos programados até novembro. Para o dia 26 de setembro, o disco da Big Band da Santa. No dia 31 de outubro é a vez da Banda Urbana. E em 28 de novembro, os temas gravados recentemente pela Reteté Big Band.

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