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Luis Fernando Verissimo
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A beleza maior

A beleza da Itália conspira contra os seus cineastas. Por mais dramáticos que sejam os filmes, eles serão sempre, antes de qualquer outra coisa, belos folhetos turísticos. E por mais que tentem retratar a crise moral do nosso tempo sempre acabam retratando um estilo de vida invejável, uma doce crise. Você saía do filme seminal do Fellini, sobre Roma como metáfora para o apocalipse iminente, menos impressionado com a devassidão e o desespero dos seus personagens do que com o alegre rebuliço de um começo de noite na Via Veneto, e quem não queria ser Marcello Mastroianni, descrente de tudo mas comendo todas? Os filmes do Antonioni também se esforçavam para nos dar angústia, mas nunca o vazio existencial foi tão fotogênico. Você não duvidava que os personagens de Antonioni em filmes como A Aventura, Noite e Eclipse sofressem com a falta de sentido da vida, mas todos pareciam saídos de uma edição da Vogue. Eram elegantemente perdidos. E que cenários!

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2014 | 02h09

No filme A Grande Beleza, o diretor Paolo Sorrentino nem finge ignorar os cenários contra os quais desfilam seus personagens. Usa Roma, conscientemente, como personagem também. Convoca o cenário como cúmplice nas suas histórias cruzadas. E usar a beleza de Roma assim, descaradamente, é covardia. A sequência final de A Grande Beleza é a câmera passeando sob as pontes do Tevere, enquanto aparecem os créditos, e no dia em que vimos o filme muita gente que normalmente já teria saído do cinema ficou no lugar para se deliciar um pouco mais com o cenário.

O personagem principal do filme, Jep Gambardella (vivido por Toni Servillo, com sua cara de nobre romano num afresco mal pintado), é o Marcello Mastroianni depois de A Doce Vida, em estado de cinismo terminal. É um escritor de um livro só e diz para quem lhe cobra outro livro que está esperando uma "grande beleza" para inspirá-lo. Enquanto isto vai curtindo, além dos prazeres da decadência, as pequenas belezas de um cotidiano romano. Mas a beleza maior é a própria Roma, que se não inspira o personagem certamente inspirou o diretor.

O maior defeito do filme é a sua duração. Pode-se imaginar Sorrentino agoniado com a perspectiva de ter que cortar algo que filmou e no fim decidindo incluir tudo, dane-se a metragem. Você sabe que um filme passou da hora de acabar quando começa a pensar "poderia terminar aí..." - e o filme não termina. Há muitas cenas finais em A Grande Beleza antes do fim pra valer. E fica uma frustração: Jep lembra do seu primeiro amor e passa todo o filme fazendo mistério sobre o que ela lhe disse, certa vez, depois de um beijo à beira do mar. Vai ser a frase definitiva do filme, pensa você. E a frase não vem. Mas tudo bem. Ainda tem o passeio da câmera pelo Tevere.

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