Ernesto Vasconcelos/Divulgação
Ernesto Vasconcelos/Divulgação

A beleza do caos de Nelson Baskerville

Vencedor do Prêmio Shell de melhor diretor vive fase criativa após peça Luís Antônio-Gabriela

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2012 | 03h07

A beleza não está no apolíneo. Naquilo que é luminoso, bem-acabado, perfeito. Ao menos, não sempre. Foi com um teatro sujo, despudorado, quase de mau gosto, que Nelson Baskerville conquistou a aclamação, as plateias cheias e o Prêmio Shell 2012 de melhor diretor. "Há no teatro uma exigência de tudo ser limpo. A luz tem de ser linda, a cena arrumada", diz o encenador. "Mas consigo olhar qualquer paisagem e achar algo feio. Existe sempre uma falta de combinação nas coisas. Não adianta deixar bonitinho. Tem de gostar do jeito que é, e é feio mesmo."

Para esta edição do Festival de Curitiba, Baskerville trouxe duas amostras da sua linguagem "suja": Por Que a Criança Cozinha na Polenta- espetáculo de 2008 que amealhou 26 prêmios, mas passou praticamente despercebido em São Paulo - e o recente Luís Antônio-Gabriela, título que jogou luzes sobre o seu estilo e catapultou seu nome.

"As pessoas agora me perguntam: 'Mas o que é que você tinha feito antes mesmo?'", conta ele, 50 anos, 32 de carreira. Começou a fazer teatro ainda criança, na escola e na igreja. Formou-se como ator pela Escola de Arte Dramática. Frustrado, chegou a abandonar tudo e foi lavar pratos, em Londres. Mas, de volta, reencontrou o palco. Tornou-se professor de interpretação, passou pela televisão, descobriu-se artista plástico. E, em 2005, dirigiu seu primeiro espetáculo. "Hoje, vejo meus alunos fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Existe essa pressão por acontecer. Isso não importa. Vai fazendo o que você tem vontade. Porque uma hora acontece."

Após três temporadas em São Paulo e as apresentações em Curitiba, Luís Antônio-Gabriela inicia sua carreira internacional. A Cia. Mugunzá embarca em maio para Portugal, onde passa por Lisboa e pelo Porto. Existem planos de levar a montagem a Paris. E, em breve, a história será contada em livro: a obra já foi escrita e está em fase de edição.

Mas não se resume a reconhecimento o saldo desse espetáculo. O trabalho parece ter dado vazão a um fluxo criativo. Apenas este ano, o diretor já estreou outras três criações: 17 x Nelson, Os Sete Gatinhos e Brincando com Fogo. Para o segundo semestre, prepara Os Credores, de Strindberg. E, depois de conduzir uma leitura dramática do texto Boule d'Or, do francês Jean-Pierre Sarrazac, planeja encená-lo.

O fundo autobiográfico de Luís Antônio-Gabriela poderia sugerir que a nova e profícua fase é resultado de alguma resolução de caráter psicológico. Afinal, a peça dá conta de sua trajetória familiar, examina os conflitos com o irmão travesti de quem o diretor passou mais de 30 anos afastado. Tem ares de acerto de contas. Mas não parece estar aí, ou pelo menos não se restringe a isso, o "despertar" de Baskerville.

Em cada um dos seus novos trabalhos, percebe-se a afirmação de um estilo particular. O encontro de uma voz própria, que passa ao largo de conceitos como elegância e contenção. A convergência de um percurso que se traduz em uma cena excessiva, caótica e viva. "Não estou fazendo nada novo. Até porque isso não existe. Estou combinando elementos, influências que recebi", pontua. "Não tenho linhas estéticas a serem aplicadas. Parto apenas do texto e da minha própria ignorância. Quando faço uma peça é para que eu mesmo possa entendê-la."

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