José Patricio/Estadão
José Patricio/Estadão

A bela, os sujos e os malvados

Mel Lisboa encena peça em plena Cracolândia e assume discurso engajado

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h08

Mel Lisboa está fazendo uma peça de teatro. Não, não é exatamente isso que ela está fazendo. "Todo mundo faz teatro, se envolve com um monte de coisas, mas poucos têm realmente uma razão, uma motivação maior por trás de simplesmente fazer uma peça", argumenta a atriz, protagonista de Homem Não Entra, sua segunda parceria com a Cia. Pessoal do Faroeste. "Eu me interessei pelo trabalho deles, mas de repente me vi envolvida em algo muito maior: uma questão política, em uma militância."

É na Rua do Triunfo, reduto da Boca do Lixo paulistana, que ela apresenta o novo espetáculo. Dirigida por Paulo Faria, a obra revê um episódio verídico da história da cidade: em 30 de dezembro de 1953, o então prefeito Jânio Quadros expulsou cerca de 1 mil prostitutas do Bom Retiro, onde havia a chamada Zona Livre, e as confinou na região da Luz. "É tanta coisa que tem para investigar a partir de um fato histórico isolado", considera Mel. "O antes, o depois, os porquês, o que estava acontecendo em São Paulo e no País. E a óbvia ligação com o que está acontecendo agora."

Ambientada como um faroeste, a trama de Homem Não Entra foca em uma história do passado. Mas está continuamente a tratar de assuntos que reverberam diretamente no atual debate sobre a Cracolândia: Põe sob suspeita a ação policial na região, a internação compulsória de viciados e as medidas de "higienização" social, que volta e meia são anunciadas para a área. "As pessoas, às vezes, não entendem o que eu estou fazendo aqui. Tem gente que acha o máximo, mas tem quem ache que eu sou maluca. É um lugar para onde ninguém quer olhar. Ninguém quer vir para cá, ninguém quer andar pelo centro, olhar para a própria história", diz ela, que faz a cena final da montagem à meia-noite, no meio da rua. Tudo em meio a mendigos, prostitutas e usuários de crack que frequentam a região.

"Eu mesma não conhecia essa parte da cidade. Mas ao ver tudo isso você tem duas opções: ou você desiste, admitindo que é algo do qual talvez não queira falar, ou você encara. E eu encaro. Porque é impossível vir aqui, ver tudo isso e ignorar. Vou voltar para minha casa, ficar lá no meu cantinho e fingir que isso não existe? O simples fato de estar aqui, fazendo um espetáculo que toca nesses assunto, já é, em si, uma atitude política."

Nada na trajetória de Mel Lisboa poderia sugerir tal pendor militante. Em 2001, prestes a ir para Paris cursar a Faculdade de Cinema, ela mudou de planos ao ser escalada para a minissérie Presença de Anita: papel que lhe rendeu notoriedade, além da pecha de sex symbol. No teatro, estreou em 2002, em uma montagem de Confissões de Adolescente e enveredou por um caminho em que comédias, como A Mulher do Candidato (2008) e Mulheres Alteradas (2010), eram a regra.

A aproximação com o grupo Pessoal do Faroeste foi intermediada pelo ator Daniel Alvim, ex-namorado da atriz e antigo integrante da trupe. "Tinha passado muito tempo viajando e queria parar um pouco em São Paulo", conta, lembrando a ocasião em que recebeu o convite para integrar o elenco de Cine Camaleão - Boca do Lixo. Essa criação da Cia. Pessoal do Faroeste, certamente, colocava Mel em contato com uma linha estética diferente. Mas tudo na sua interpretação ainda se assemelhava ao estilo incontido com o qual ela já estava acostumada. A peça, afinal, convidava ao exagero e ao desregramento. "No teatro eu sempre fiz tudo para fora, a personagem de agora é o oposto, tudo acontece dentro dela, cada mínimo gesto, cada virada de cabeça tem que ser calculada", informa.

Para dar conta das sutilezas de Homem Não Entra, Mel mergulhou no universo do cinema western. O clima de faroeste, afinal, não transparece apenas na cenografia ou no figurino, mas nas nuances da sua personagem. "O faroeste é um gênero que já estava em declínio para minha geração. Não é algo a que eu assistia. Agora, para essa peça, fomos estudar especialmente o western spaghetti. Fiquei impressionadíssima com filmes como Era Uma Vez no Oeste, que entrou para lista dos melhores da minha vida. É perfeito do início ao fim."

Na pele da prostituta Brigitte, Mel representa a filha de uma índia que foi parar em um bordel, após ser estuprada pelo padrasto. Em cena, maneja armas, mata todos aqueles que se colocam no seu caminho e fuma constantemente. "É uma figura alegórica. Há uma cena em que ela acaba de ser violentada, mata a mãe adotiva e chega sem alterar o tom de voz. Se eu for querer psicologizar isso, vou sair direto para o divã."

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