A bela estreia de Pernilla August

Ex-mulher de Bille August assina Beyond, sobre violência doméstica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Existem várias tribos na programação da Mostra de São Paulo. Podem-se agrupar os filmes em várias tendências, mas há uma que merece um registro especial. Os filmes das ex-mulheres ou viúvas. Com todo respeito. Paula Gaitán já havia feito Diário de Sintra, reconstituindo a fase final de Glauber Rocha em Portugal, que ela acompanhou como figura privilegiada - afinal, era sua mulher. O filme talvez não fosse um documentário, mas um ensaio poético, articulando imagens e palavras e sons num refinado ensaio audiovisual.

Paula assina agora Agreste, e o espaço - o sertão - se reveste de múltiplas experiências e significados, como as personagens que Marcélia Cartaxo é capaz de interpretar. A atriz encontra-se/defronta-se com a natureza e com figuras femininas que não exploram apenas o leque de suas interpretações. De novo com estudada plasticidade, Paula Gaitán percorre uma via que pode ser considerada uma das mais pessoais e interessantes do cinema brasileiro atual.

Seu filme - curto, de apenas 76 minutos, numa Mostra cujos grandes destaques são filmes com quatro, cinco horas ou mais - não tem muito, ou não tem nada a ver com o de Pernilla August, exceto que ambas estão iluminando o feminino (e revelando sua multiplicidade). Houve um tempo em que o dinamarquês Bille August podia ser considerado um dos maiores narradores clássicos do cinema. Não por acaso, ele pertence ao seleto grupo de diretores que ganharam duas vezes a Palma de Ouro - por Pelle, o Conquistador e As Melhores Intenções (que tinha roteiro de Ingmar Bergman).

Bille foi casado de 1991 a 1997 com Pernilla e ela foi atriz em alguns de seus filmes. Mesmo depois que se separaram, Pernilla manteve o sobrenome do ex-marido. Ela também foi atriz para outros diretores. Embora o papel não fosse grande, George Lucas precisava de uma atriz muito forte para fazer a mãe de Annakin Skywalker em Star Wars Episódio IV - A Ameaça Fantasma. A perda da mãe vai marcar o garoto Annakin e, mais tarde, quando ele se sentir traído por Padmé Amidala, fará sua opção pelo lado escuro da Força, virando o sinistro Darth Vader. É uma referência pop que milhões de espectadores assimilaram em todo o mundo.

Pernilla foi a mãe de Annakin e seu rosto humano transbordava amor em A Ameaça Fantasma. Pernilla virou diretora e a Mostra exibe agora seu longa Beyond. Não é tão longo assim, como o filme de Paula Gaitán. Pouco mais de 90 minutos. Começa com um casal numa cama. Marido e mulher desfrutam sua intimidade, as filhas, duas meninas, adentram no quarto com o café da manhã que prepararam. Uma família feliz, mas aí toca o telefone, a mãe - Leena, interpretada por Noomi Rapace - atende e, ao ouvir a voz do outro lado, desliga. Quem fala é sua mãe, as ligações se repetem - do hospital em que está internada - e a protagonista sempre recusando o contato. É o marido que a força a encarar o passado. A família parte, pai, mãe e as filhas, para a cidade em que a avó (a sogra) está hospitalizada.

Memória. Uma viagem puxa a outra e Leena reconstitui na lembrança imagens da outra família, disfuncional. A mãe bêbada, o pai, também alcoólico e talvez nem tão violento, mas um bruto, o irmão que morre e as circunstâncias dessa morte marcarão a personagem para sempre. Tudo isso volta em Beyond, que se baseia num romance premiado de Susana Alakoski. Há quase 50 anos, Elia Kazan e o roteirista William Inge - que venceu o Oscar por seu trabalho - fizeram um filme clássico. Clamor do Sexo (Splendor in the Grass) não é só sobre a repressão a amores de amores adolescentes. É também, e principalmente, "sobre como devemos perdoar a nossos pais, para nos perdoarmos a nós mesmos". As aspas são de Kazan, ele que dizia que teve de fazer muita análise para chegar a essa reconciliação.

Enquanto seu ex-marido perdeu o rumo da carreira e nem de longe lembra o grande narrador que foi, Pernilla fez sensação no recente Festival de Veneza, onde Beyond participou da seleção da Semana da Crítica. Ela não é uma narradora clássica, como Bille August foi em sua grande fase, mas Beyond é exemplarmente construído, com grande riqueza de observação e, principalmente, uma qualidade irretocável de interpretação. É curioso que Pernilla tenha recorrido a um casal de verdade - Noomi Rapace contracena com o marido, Ole Rapace - para contar essa história de abuso e alcoolismo, de violência doméstica.

Como mostrar, o que mostrar? Pernilla certamente se defrontou com esse dilema. Seu filme, sob certos aspectos esquemático - mas isso é intencional -, é fundamentalmente rigoroso. O último plano foi considerado pela crítica um dos mais belos em Veneza, 2010. Está na Mostra, ao seu alcance.

BEYOND

Unibanco Arteplex 4 - Hoje, 14h

CCBB - Quarta, 20h10

Espaço Unibanco Pompeia 1 - Sexta, 18h

Cine Sabesp - Sábado, 18h20

AGRESTE

Unibanco Arteplex 3 - Hoje, 15h20

Unibanco Arteplex 4 - Quinta, 14h

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