Mônica Bento/AE
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A bela enfrenta o desafio de ser fera

Maria Fernanda Cândido escapa do rótulo de 'mocinha' para interpretar sua primeira vilã, a terrível Marquesa de Merteuil

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Ela chegou no horário marcado. Usava calça larga - dessas de fazer exercícios -, tênis e uma camiseta cinza. Nos ombros, trazia uma sacola grande, de pano. E sorria. Timidamente. Como fazem as mocinhas de telenovela. Não é a maquiagem nem as câmeras de TV que transformaram Maria Fernanda Cândido no protótipo da heroína. Enquanto ela conversa com os colegas, anda pelos camarins ou espera no palco a hora da cortina se abrir é possível entender por que a atriz sempre interpretou personagens com rasgos de bondade e justiça. Maria Fernanda tem o que se poderia chamar de "physique du rôle" de boa moça: bonita, simpática, discreta. Sem palavras, olhares ou risos fora do lugar. Por tudo isso, soa improvável sua escalação para viver a maquiavélica Marquesa de Merteuil, um dos mais terríveis papéis da literatura universal.

É a primeira vez que a mãe de Tomás (4 anos) e Nicolas (2 anos) interpreta uma vilã. A partir de sábado, ela protagoniza Ligações Perigosas, adaptação de Christopher Hampton para o romance de Choderlos de Laclos, que chega ao Teatro Faap. Nos anos 1980, a história dos sádicos amantes ganhou fama renovada após estrear nas telas pelas mãos de Stephen Frears. O filme mereceu sete indicações para o Oscar, arrebatou três estatuetas. E, ainda hoje, grande parte do público traz na memória a imagem de Glenn Close, que se sagrou como a própria encarnação do mal.

Divas. A Merteuil que Maria Fernanda construiu para si é diferente. Sua perfídia não é explícita. Não aparece em trejeitos ou no tom de voz. "Pensei em alguém que não tivesse uma imagem pública de vilã, que não estivesse identificada com esse rótulo", comenta o diretor, Mauro Baptista Vedia. E é assim que a atriz diz ter conduzido sua personagem.

Suas referências passam ao largo da Bette Davis, de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? ou de outras tiranas clássicas. Sem os traços típicos das malvadas, espelhou-se antes na altivez das antigas divas Catherine Deneuve e Gena Rowlands. "Merteuil não é uma bruxa má. É uma mulher aristocrática, inteligente. Sua maldade está na dissimulação. E por isso mesmo não poderia ser caricatural", defende.

Para reforçar o protagonismo de Merteuil, a encenação pincelou de tons distintos cada um dos personagens: a vilania do Visconde de Valmont, por exemplo, aparece em tintas carregadas, tendendo à galhofa e ao exagero. Apesar do cenário suntuoso e do figurino de época - todos os trajes foram feitos em Portugal -, o diretor recusa o rótulo de realista. "Não são interpretações naturalistas, evito psicologismos." Conhecido por suas montagens dos textos do cineasta Mike Leigh, Vedia prefere falar em um teatro de "climas, atmosferas", que tem o cinema como norte.

Na trama, que se passa às vésperas da Revolução Francesa, cabe a Marquesa conduzir todos a sua volta à ruína. "Ela não é só má. Sente prazer na perversidade e passa por cima de tudo para conseguir o que quer", acredita a atriz. Com o intuito de se vingar do ex-amante, não hesita em desgraçar a jovem Cecile de Volange (Laura Neiva). Para isso, une-se ao inescrupuloso Visconde de Valmont (Marat Descartes), que também seduz a virtuosa Madame de Tourvel (Sabrina Greve), unicamente pelo prazer da conquista. "Mas Valmont não passa de um títere nas mãos dela", opina o diretor.

Foi o papel da italiana Paola, na novela Terra Nostra, que revelou Maria Fernanda. Comparada a Sophia Loren, conquistou uma sequência de personagens na televisão, no cinema e, ocasionalmente, no teatro. Todas boazinhas. Até como amante - recentemente interpretou o pivô da separação de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira na minissérie Dalva e Herivelto - Maria Fernanda conseguiu manter a aura. E não foi diferente nos trabalhos mais recentes que o público ainda não viu: tanto na série Afinal, o Que Querem as Mulheres, que Luiz Fernando Carvalho estreia na Globo em novembro, quanto em Aparecida - O Milagre, novo longa de Tizuka Yamazaki, ela encarnará figuras triviais, pautadas pela correção de caráter.

Ligações Perigosas é a exceção à regra. "Destoa de tudo que já fiz", ela assente. Mas nada garante que Maria Fernanda não retorne logo ao posto em que parece se sentir mais à vontade: o de moça bem comportada.

Galeria. Mais fotos da peça Ligações Perigosas em

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