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À beira-mar em Portugal, com inveja das Correntes

Embarco para encontro em Póvoa de Varzim, que vai homenagear Nélida Piñon

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 02h00

Para Ricardo Boechat, amigo,

um predestinado

Amanhã, embarco para Póvoa de Varzim, onde, na terça-feira, dia 19, o presidente da República abre a 20.ª Correntes d’Escritas que reunirá, este ano, 140 escritores de língua portuguesa e espanhola, um dos grandes acontecimentos culturais de Portugal ou, melhor dizendo, da Europa. Lá estarei ao lado de Nélida Piñon e de Milton Hatoum. A cada ano, na abertura é lançada uma Revista Dossiê sobre um autor de boa estirpe. Ano passado foi Luis Fernando Verissimo, este ano, Nélida Piñon. Quando o Brasil poderá homenagear os grandes autores portugueses? Pelo andar da carruagem (nem Ministério da Cultura temos), vai demorar. Nem interesse nem dinheiro há por aqui.

Pensar que as Correntes serão abertas pelo presidente da República, o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Aqui no Brasil, jamais vi um presidente, governador ou ministro em eventos exponenciais como a Flip, a Jornada Literária de Passo Fundo (já extinta, lamentavelmente), a Feira Pan-Amazônica, a Feira de Livros de Porto Alegre, ou as Bienais de São Paulo e Rio de Janeiro. Anos atrás, o ministro da Educação – nem me lembro o nome, também não fez nada – não subiu ao palco para falar na abertura da Bienal, com medo de que o vaiassem ou o recebessem com ‘Fora Temer’. Ora, pois! diria um português.

Póvoa de Varzim é a terra de Eça de Queiroz, que ali nasceu e sua casa natal fica a poucos metros do Teatro Garrett, onde tudo acontece. Mas Camilo Castelo Branco, polêmico autor de 260 livros (dizem que escrevia seis por ano em um português impecável), ali morou no Hotel Luso-Brasileiro, hoje situado vizinho ao Teatro Garrett. O hotel era junto ao cassino, Camilo era doido por um carteado. 

Nos anos 1950, na biblioteca pública de Araraquara existiam 108 livros de Camilo, encadernados em couro vermelho. Segundo Marcelo Manaia, bibliotecário da época, até então somente quatro pessoas tinham lido todos os volumes naqueles dias: Hugo Fortes; Raphael Luiz J Thomaz, estudante e poeta – ele resolvia as equações de matemática por meio de sonetos satíricos, explicando a impossibilidade de solução e tirava 10; Sérgio Antonio Fenerich, mais tarde publicitário, hoje filólogo, cidadão emérito de Santa Adélia e, finalmente, Sidney Sanchez, que chegou à presidência do Supremo Tribunal Federal, e intercalava os livros de Camilo – talvez para refrescar a mente – com as coleções maçudas da Revista dos Tribunais. Dizem que, por décadas, Sidney teria sido o único leitor daqueles calhamaços de Direito. Valeu.

Bem, o slogan poético de Póvoa é: É bom morar aqui. Cidade litorânea, ela é quase vazia neste época do ano, devido ao fim do inverno. Mas é uma temperatura suportável, que nos estimula a boas caminhadas entre o hotel Axis, que reúne todo mundo, e o Teatro Garrett. Os grandes momentos no hotel são as horas de comer e as conversas que, depois do jantar, se estendem animadas. Haverá três lançamentos brasileiros: o romance Uma Furtiva Lágrima, de Nélida Piñon, A Noite da Espera, de Milton Hatoum, e o meu Desta terra Nada Vai Sobrar a Não ser o Vento que Sopra Sobre Ela. Tive sorte de encontrar um editor sonhador e ousado, que fez edição impecável, o Carlos Virgilio Ferreira, que comanda a Teodolito. 

Nélida e José Carlos Vasconcelos, grande figura, editor do Jornal de Letras de Portugal farão uma conversa às 17 horas do dia 20. Às 18 horas, Valter Hugo Mãe comanda a mesa em que estarei ao lado de Pilar del Río, viúva de Saramago, o que me deixa feliz e ansioso. O tema será um verso de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujo centenário se comemora no final deste ano. O verso é atraente: “Porque os outros se calam, mas tu não”. De colher para mim, que estou engasgado por aqui. Se bem que, se pudesse, eu escolheria outro verso, um de Exílio: “Quando a pátria que temos não a temos/Perdida por silêncio e por renúncia/Até a voz do mar se torna exílio/ E a luz que nos rodeia é como grades”. Milton Hatoum também estará em mesa do dia 22, ao lado de Teolinda Gersão, Carlos Quiroga e Joel Neto falando sobre: Aprendi a viver em pleno vento.

Quando cheguei ao Teatro Garrett, dois anos atrás, em minha primeira Correntes, ao entrar me veio a lembrança de certa manhã, quando, cursando o ginásio no Ieba, o professor de português Jurandyr fez um aviso: “Como vocês sabem, porque na cidade só se fala disso, um grupo de teatro de estudantes de Coimbra, Portugal, uma das mais antigas universidades do mundo, uma vez que foi fundada em 1290 por Dom Diniz, virá a Araraquara. Vão interpretar no Teatro Municipal uma peça de Almeida Garrett e dizer alguns de seus poemas. Recebemos um número de convites para dar aos alunos que não podem pagar, mas querem ver o espetáculo”. 

Eu já pertencia àquele grupo que tinha o Zé Celso e outros maluquinhos por teatro e cinema e morria de vontade de ver. Afinal, Coimbra era célebre pelas serenatas e capas pretas dos alunos. Na classe, todos se entreolharam, um levantou a mão, e outro, e outro. Morri de vontade. Mas e o orgulho? Mostrar que eu não podia pagar? Não levantei a mão. Morri de raiva de mim, por ser um tolo orgulhoso, nem um pingo descolado, me lixando para a opinião pública. 

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