À beira da perfeição

Com vibração e energia incomuns, maestro Christoph Eschenbach encanta público

O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h11

Como se constrói um excelente concerto? Com um repertório atraente, desafiador; e também com músicos talentosos e empenhados. Segui a primeira regrinha ao optar pela segunda apresentação da Orquestra Sinfônica Nacional de Washington, terça-feira, no Teatro Municipal de São Paulo. A Abertura Carnaval Romano de Berlioz e a Sinfonia n.º 5 de Tchaikovsky foram substituídas por Blue Blazes, do norte-americano Sean Shepherd, de 33 anos, encomenda da Orquestra estreada nesta turnê; e pela 7.ª Sinfonia de Beethoven. Nas duas noites, manteve-se o concerto para violoncelo de Edouard Lalo.

A peça de Shepherd, de cerca de oito minutos, aparenta-se ao que os insiders da música contemporânea norte-americana chamam de pós-minimalismo, caldeirão onde convivem ousadias bem-comportadas com franco tonalismo. Blue Blazes serviu, no entanto, para Christoph Eschenbach - excepcional pianista que consegue ser melhor ainda regendo - mostrar suas armas. E elas são muitas. Dono de uma energia e vibração incomuns, transmite com clareza a seus músicos uma urgência que jamais degenera em precipitação. Ao contrário, a música flui eletrizante do palco para a plateia - e vice-versa.

Olhos e ouvidos não se despregaram mais do palco. Ótima escolha o pouco tocado concerto para violoncelo do francês Edouard Lalo, compositor hoje conhecido por três obras dos anos 1870: o concerto para violino, a Sinfonia Espanhola e este original concerto para cello. O solista Charles Bohórquez extrai uma poderosa sonoridade do instrumento, impondo-se à orquestra, mesmo literalmente sitiado por acordes marciais constantes no primeiro movimento. A graça incrível do Intermezzo, um andantino delicioso em que o cello quase levita num voo delicado ao lado da flauta, arrancou aplausos entusiasmados do público. Nada contra: o público tem o direito de expressar seu entusiasmo. O que não dá é conviver com minha vizinha de poltrona conferindo emails, twittando e jogando videogames no celular.

O melhor, entretanto, ficou com Beethoven. Afinal, é sempre necessário reouvir suas sinfonias, pois elas são o fundamento e farol criativo de grande parte da música do século 19. Nenhum músico da ótima Orquestra Nacional saiu de cena para a sétima (hoje em dia, as orquestras modernas, quando tocam Beethoven, reduzem seus efetivos de cordas). Pensei logo numa execução pesadona. Engano. Eschenbach conduziu aquele mar de cordas com extremo senso de equilíbrio entre as várias seções da orquestra. Fez o elefante dançar, parafraseando o que disse Charlie Mingus, genial contrabaixista de jazz, sobre sua composição sinfônica Let My Children Hear Music, dos anos 70. Não à toa, Richard Wagner chamou esta sinfonia de "a apoteose da dança". Eschenbach nos mostrou por quê. E com muita graça. O rigor rítmico, os andamentos um pouco mais acelerados do que o convencional (influência das interpretações historicamente informadas) e a concepção arquitetônica irretocável fizeram desta 7.ª um daqueles momentos para não se esquecer tão cedo.

De volta para casa, pesquisei o tamanho da orquestra que Beethoven regeu nas três primeiras apresentações da 7.ª em Viena, entre 1812 e 1814. Mais uma surpresa: sua orquestra tinha 36 violinos, 14 violas, 12 violoncelos e 7 contrabaixos. Anteontem, tocaram 29 violinos, 12 violas, 12 cellos e 8 contrabaixos. Portanto, a 7.ª que ouvimos estava bem próxima, em volume sonoro, das primeiras execuções.

Quanto aos incômodos twitters/joguinhos da vizinha de poltrona, sabe-se que há orquestras, nos EUA, colocando monitores nas costas da poltrona da frente nos teatros mostrando detalhes da performance; outras estimulam twittadas pelas redes sociais durante a execução. A intenção é boa, mas o lugar é inadequado. Ainda assim, tudo bem. Mas só se o tema for de fato o que rola no palco. O Beethoven eletrizante do palco não permitia desvios de atenção.

Crítica: João Marcos Coelho

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