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Sérgio Augusto
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A Beatriz de Vinicius

Se eu lhe disser que fui amigo de Vinicius de Moraes, que convidado por ele assisti à estreia do histórico show de bossa nova no Au Bon Gourmet, em 2 de agosto de 1962, e três dias depois pranteamos juntos, na varanda do Alcazar, a morte de Marilyn Monroe e discutimos o filme Bonequinha de Luxo, você na certa acreditará, embora nada disso seja verdade. Fui ao show graças a uma companheira de redação no Correio da Manhã, jamais conversei sobre Bonequinha de Luxo ou Marilyn com o poeta, a quem, aliás, conheci muito superficialmente.

Sérgio Augusto,

19 de outubro de 2013 | 02h20

Colaboramos, na mesma época, no Diário Carioca, ele numa coluna de música intitulada Bossa Nova e eu comentando filmes, mas só fomos nos cruzar pela primeira vez quatro ou cinco anos mais tarde, na redação do Pasquim.

Levado para o Pasquim por Tarso de Castro, Vinicius nele publicou meia dúzia de textos (perfis de Antônio Maria, Ciro Monteiro, Di Cavalcanti e Carlos Leão, uma entrevista com Chico Buarque, um poema sobre câncer e uma ode à mulher), e no curto tempo em que por lá circulou trocamos apenas impressões e bobagens sobre cinema, nossa praia comum. Detalhou-me seu relacionamento com Orson Welles e a atriz francesa Renée Falconetti (a Joana d'Arc de Dreyer), ambos de passagem pelo Rio em 1942, sua participação na mais fugaz revista de cinema séria já lançada no Brasil, Filme, suas frustradas tentativas de fazer cinema aqui e em Hollywood, seu total desprezo pelo filme Orfeu Negro, de Marcel Camus.

Quase fui seu primeiro biógrafo. Em 1990, Luís Schwarcz convocou um pequeno grupo de jornalistas para levar adiante uma coletânea de biografias para a Cia. das Letras. Ruy Castro inaugurou-a com o formidável Anjo Pornográfico, sobre a vida e obra de Nelson Rodrigues. A princípio escalado para biografar Glauber Rocha, acabei me fixando em Vinicius, mas, como precisava ganhar dinheiro e a prometida bolsa que custearia o projeto nada de sair, joguei a toalha, e o crítico literário José Castello incumbiu-se da empreitada, tempos depois.

O que havia pesquisado acabaria tendo serventia 16 anos depois, quando produzi para a Jobim Music o Cancioneiro Vinicius e o Cancioneiro do Orfeu. De qualquer modo, foi pena eu ter batido mesa. Duvido que minha biografia resultasse igual ou melhor que a do Castello, mas nela Tati de Moraes, primeira mulher do poeta, estaria mais presente. Tati se recusava a falar sobre Vinicius com quem quer que fosse. Só comigo, confidenciou ao amigo em comum Newton Goldman, ela se abriria. Nenhum mérito pessoal; apenas me beneficiei da velha amizade que nos unia desde o início da década de 1960.

Ao desistir da biografia, decidi poupá-la da desagradável tarefa de relembrar os 12 anos que viveu com Vinicius e as cicatrizes que aquela convivência lhe deixara. De mais a mais, se ainda fosse viva quando retomei minhas pesquisas para tocar os Cancioneiros (Tati morreu em 1995, aos 84 anos), sua contribuição não seria tão relevante, pois Vinicius só iniciou sua carreira musical bem depois da separação.

Eu era pouco mais que um adolescente e conhecia Tati apenas de leitura. Ela fazia críticas de cinema na Última Hora e eu, no Correio da Manhã. Ao sermos apresentados por Gilberto Souto, numa projeção na cabine da United Artists, confessei-me surpreso com seu verdadeiro sexo (Tati, para mim, era nome de homem); ela riu e nos tornamos amigos instantâneos e companheiros de assíduas sessões de cinema privadas. Um dia, ela largou a crítica e passou a viver de traduções. Traduziu Ibsen, Greene, Lessing, Lillian Hellman e Lorca, às vezes de parceria com Clarice Lispector.

Miudinha e magérrima, mas forte e severa, a voz rouca de tanto fumar, tinha a alma chique, opiniões sólidas e a língua afiada. A "retardosa rosa Mournful and Beatrix" da última das Cinco Elegias, foi a mulher mais importante da vida do Vinicius, que, tombeur de femmes, se uniria a mais oito nas décadas seguintes. Dizem que chegou a escrever algumas das crônicas cinematográficas assinadas pelo marido no jornal A Manhã, no início dos anos 1940. É possível e até provável.

Conheceram-se em 1938. Ela, nascida Beatriz Azevedo de Mello, muito esperta, bonita e culta, era adorada pelos intelectuais modernistas de São Paulo e por Monteiro Lobato, que batizou de Tati o peixinho vermelho de Reinações de Narizinho. Pensando nela, Raul Bopp inventou "a filha da rainha Luiza" de Cobra Norato. Além de dois filhos, Tati deu ao poeta o empurrão decisivo que o levou à carreira diplomática e para a esquerda.

Graças a ela, Vinicius perdeu o ranço religioso trazido do Colégio Santo Inácio e livrou-se da influência do catolicão Octávio de Faria. A guinada à gauche consumou-se no convívio diário com o escritor socialista americano Waldo Frank, também ciceroneado pelo poeta durante a guerra. Com Welles, Vinicius discutiu cinema e caiu na esbórnia. Com Frank, passou a olhar o Brasil e o mundo por uma ótica diferente.

Frank não só o forçou a descobrir um Brasil miserável que parecia muito além dos seus olhos como lhe serviu de musa para a criação de sua obra mais ambiciosa. Os dois batiam perna pela extinta favela do Pinto, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, quando o escritor americano, observando os negros do morro, comentou: "Eles parecem gregos. Os gregos antes da cultura grega". Começou a brotar ali a ópera popular afro-brasileira Orfeu da Conceição, cujo primeiro ato foi escrito no carnaval de 1942, na casa do cunhado Carlos Leão, e o resto em Los Angeles, onde Vinicius serviu como cônsul de 1946 a 1950.

Lá chegou sonhando com um curso de cinema na Universidade da Califórnia, onde tomou algumas aulas de direção e roteiro. O que de mais prático tinha a aprender o fez com Welles, acompanhando as filmagens de A Dama de Xangai e Macbeth. Passou quatro anos em Los Angeles, aproveitando-se dos prazeres que Hollywood lhe podia oferecer - premières, visitas a estúdios, festas em casas de artistas, principalmente na mansão de Carmen Miranda, shows de jazz - e materializando outros desejos antigos, como aprofundar-se em ciências sociais e música erudita.

Aos poucos cansou-se da ensolarada Califórnia, dos americanos e do cotidiano hollywoodiano. "A vida aqui é muito mais chata do que você está pensando", desabafou em carta a Rubem Braga, a poucos meses de sua volta ao Brasil. Antes, conheceu e extasiou-se com o México, aonde fora recolher material inédito sobre a passagem de Eisenstein por aquelas paragens, nos anos 30. Tati já saíra de sua vida, o cinema continuou.

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