A batalha de do ângulo da família

Estreia o polêmico Fora da Lei, de Bouchareb, que dividiu os franceses

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2011 | 00h00

Na entrevista que deu ao Estado, em outubro, quando Fora da Lei passou na Mostra de São Paulo, Rachid Bouchareb declarou-se surpreso. Como é que 50 anos depois de O Pequeno Soldado, de Jean Luc Godard, e A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo - que foram censurados na década de 1960 -, essas coisas ainda acontecem? "Essas coisas" são justamente as reações que seu filme que estreia hoje - a estreia oficial foi ontem, mas a maioria das salas não funcionou - provocou na França. Desde que foi exibido em Cannes, em maio, Fora da Lei, Hors la Loi, provocou um vendaval de críticas.

Veteranos da Guerra da Argélia protestaram contra o filme, que, para eles, é uma distorção da história. A distorção deve-se ao fato de que o cineasta conta a luta pela independência da Argélia do ponto de vista de uma família de argelinos. Para Bouchareb, Indigènes, seu longa anterior, premiado em Cannes, em 2006 - um prêmio coletivo de interpretação masculina - , e Fora da Lei formam um díptico, como A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima na carreira de Clint Eastwood. Indigènes, ou Dias de Glória, termina em 1945 e Fora da Lei começa naquele ano. O segundo completa um ciclo, mas, apesar do formato, não se trata de um filme de gângsteres.

"É um filme policial em que os heróis são resistentes", define o diretor. "Em Cannes, muita gente escreveu que Fora da Lei é antifrancês, mas não é verdade. Trata de fatos históricos que provocam controvérsia, propondo uma outra versão. Muitos se incomodam com isso. Preferem que só a sua versão prevaleça." Bouchareb, de origem argelina, revela o que, afinal, ama na França - "É uma terra de liberdade, na qual um filme como Fora da Lei pode obter financiamento e ser feito."

Entre Dias de Glória e Fora da Lei, Bouchareb fez London River, com Brenda Blethyn e Sotigui Kouyaté, sobre um pai africano que se liga a mãe inglesa para buscar os filhos de ambos, que desapareceram em Londres, em pleno surto de combate ao terror. Todos esses filmes tratam de imigração e família. Bouchareb admite que são os temas que mais o atraem. "Claro que é pela minha origem. Sou descendente de imigrantes, sei como é difícil a integração, mas o que me interessa, de verdade, é abordar os conflitos e as tensões entre diferentes culturas e religiões, entre diferentes meios sociais. Gosto de tratar desses assuntos, mas, no limite, o meu tema é sempre a possibilidade de encontros e o reconhecimento do outro."

É o que ocorre em Fora da Lei. Expulsos de suas terras, na Argélia, uma mãe e seus três filhos são forçados a se separarem. Um dos rapazes se alista como soldado na Guerra da Indochina. Outro se integra ao movimento pela independência da Argélia e o terceiro abre seu caminho no submundo de Pigalle, em Paris. A relação familiar vira metáfora da própria nação dividida. Bouchareb ama os amplos frescos, as reconstituições históricas, mas, a despeito da grandiosidade - a grande história, com H -, o que interessa é a família, o micro. O título é no singular, poderia ser no plural - Foras da Lei. De ponta a ponta, a questão da legalidade é essencial. Independentemente de suas qualidades como cinema - contestáveis e, aliás, contestadas (veja abaixo)-, o olhar de Bouchareb pede atenção.

FORA DA LEI

Nome original: Hors-la-Loi. Direção: Rachid Bouchareb. Gênero: Ação (França/ 2010, 138 min.). Censura: 16 anos.

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